Os Sonetos de Walter Benjamin

“Walter Benjamin (1892-1940) escreveu um ciclo de 73 sonetos entre 1915 e 1925, isto é, entre os seus vinte e três e trinta e três anos. Os poemas são dedicados ao seu amigo Friedrich C. Heinle, um poeta de dezanove anos, e à companheira deste, Rika Seligson, que se tinham suicidado em 1914, pouco depois de começar a primeira guerra mundial. […]
Os textos foram desobertos na Bibliothèque Nationale de Paris, em 1981, com outros manuscritos que Benjamin confiara a George Bataille em 1940, pouco antes de, por sua vez, se suicidar, e que ali tinham sido depositados. […]
O patético desta obta não está apenas em o autor não ter chegado a revê-la e organizá-la definitivamente, porventura reduzindo-a em extensão e aumentando-lhe desse modo a eficácia estética, pois há toda uma série de sonetos muito belos. Está também em ela ter ficado por mais de sessenta anos sem ser conhecida, e portanto sem ter podido gerar qualquer espécie de influência ou discussão na produção literária do seu tempo. É nesse sentido que lhe chamo opus in absentia e para ela procurei, mais do que as traduções, as «aproximações» que se seguem.”
Vasco Graça Moura

Os Testamentos de François Villon e algumas baladas mais

François Villon nasceu em Paris em 1431. Depois de estudar na Universidade de Paris, esteve envolvido em vários casos de roubo e num episódio em que feriu mortalmente um padre. Preso várias vezes, chegou a ser condenado à morte, mas teve a pena comutada em banimento da cidade de Paris. A partir de 1463 não se tem mais notícias dele, não se sabendo o ano de sua morte. A primeira edição de sua obra saiu em 1489. E dessa obra, vários poemas, seja dos mais líricos seja dos mais sarcásticos, estão entre os mais conhecidos da literatura ocidental.
A sua vida foi a mais estranha das simbioses. Era triste, mau, alegre, louco, magro e desprezível; um feixe de pele, ossos e fogo. Anguloso, inquieto e nervoso: “Seco e escuro como um cigano”, segundo ele próprio. O lábio superior desfigurado por um golpe de adaga, olhos voltados em furtiva obliquidade para o salto súbito de um possível gendarme escondido na sombra. Era o mais hábil e vil ladrão de Paris e o maior poeta da França a seu tempo.

Excerto:
A chuva nos descrosta e lava, e eis
nos curte o sol o corpo enegrecido;
corvo e pega desolham-nos cruéis,
e barba e sobrancelhas hão comido.
Sentar não nos é nunca consentido;
e cá e lá, ao vento que varia,
e assim em baloiçar-nos só porfia,
mais que dedais bicados nos olhai.
Não sejais pois da nossa confraria;
mas que Deus nos absolva lhe rogai.

Os Triunfos de Petrarca

Depois da tradução inédita e integral para português, pelos 700 anos do nascimento do poeta italiano, de “As Rimas de Petrarca”, Vasco Graça Moura traduz “Os Triunfos” do mesmo pensador, que se tornaram populares e foram objecto de dezenas de edições nos séculos XV e XVI. Estes escritos tiveram uma considerável influência literária em Itália e no estrangeiro e, no caso português, em Luís de Camões.

Outros lugares

guião para santa apolónia

entre correntes de ar, numa estação
de caminho-de-ferro, parte alguém
e alguém está a chegar e tudo sem
se avistarem por entre a multidão.

fica o destino à solta, mas refém
de ironias do acaso e da emoção
e descuidos do tempo e da razão
nos trilhos apressados de ninguém.

ou por passarem anos, por ser vão
usar adversativas: mas, porém…,
por várias deslembranças que também
desencontradamente vêm e vão

na roda da fortuna, quando quem
assim ia passando estava à mão.

Páginas do Porto

“Desde há muito que o Porto surge com frequência na minha escrita e a mais de um título. O presente texto é uma tentativa de organizar uma espécie de rapsódia de grande parte dessas páginas, tiradas do contexto em que surgiram, na ficcção e na crónica, na poesia e no ensio, adaptadas e reorganizadas num patchwork antológico e pessoal, entretecido com uma série de temas e leitmotive recorrentes sobre a capital nortenha. (…)”
Vasco Graça Moura

Papéis de Jornal / Crónicas e outros materiais

Nos últimos anos, Vasco Graça Moura tem tido uma intervenção frequentíssima nos mais diversos meios de comunicação social. Análises políticas, comentários culturais, ensaios, crónicas, textos de circunstância, simples notas ou rápidos apontamentos – tudo isso tem caracterizado essa presença, que não prescinde de uma gama muito variada de registos expressivos e humorais, e em que é uma constante a mais total e desassombrada frontalidade quanto àquilo que o autor tem a dizer. Em Papéis de Jornal, reúnem-se várias dezenas desses textos, alguns dos quais suscitaram forte polémica, e nem todos, aliás destinados à imprensa. Por isso, em subtítulo, se fala de “crónicas e outros materiais”.

Partida de Sofonisba às seis e doze da manhã

Sofonisba, a nobre cartaginesa; Sofonisba, a pintora renascentista; Sofonisba, a historiadora de arte. “Sofonisba. Um nome assim é uma predisposição romanesca”, dirá o narrador desta história, o biógrafo de Pedro de Andrade Caminha, que se vê envolvido no caso do desaparecimento de um quadro do século XVII que representa as três graças. E as três misteriosas irmãs, as três graças Aglaia, Euphrosyne e Thalia. Neste romance que cruza os caminhos do presente de uma burguesia culta da Foz do Douro com os de um passado clássico, as coincidências e os encontros de acaso podem ter consequências funestas – ou apenas altamente surpreendentes.

“Le bonheur n’est pas grand tant qu’il est incertain – a felicidade não é tão grande quanto o é incerta -” proferiu Sofonisba , enquanto figura trágica de Corneille, uma tirada que serve o tom geral desta cativante incursão ao universo ficcional, e de inesgotável erudição, de Vasco Graça Moura. E enquanto a matrona de Cartago escolhe o veneno à submissão aos soldados de Roma, Sofonisba filha de Andrúbal Parente apanha o comboio de mercadorias às 6 h 12 de uma pardacenta madrugada de Gaia.

Poemas com Pessoas

soneto da poesia narrativa

foi assim que cheguei à poesia narrativa:
nos poemas moviam-se figuras
e a essas figuras aconteciam coisas
e essas coisas tinham um sentido deslizante,
era uma espécie de hipálage¹ do mundo:
 
com precisão a seta era dirigida
à maçã equilibrada na cabeça da criança,
mas devolvia-se ao arco, depois
de varar o coração dos circunstantes
e era a vibração do arco a derrubar o fruto,
 
num zunido do ar que a flecha deslocava
na sua trajectória. foi assim que cheguei
à poesia narrativa: havia flores nos alpes
e a corda em vibração levava à música.

Poemas escolhidos

Reúne poemas escritos pelo autor.

“Vasco Graça Moura [tem] efectivamente realizado a criação de uma linguagem muito sua, que está longe de ser de fácil acesso e que pode mesmo considerar-se hermética, mas onde a hábil ruptura sintáctica, e também semântica, de vários modos do discurso poético tradicional recupera, actualizando-os, certos veios perenes da grande linha maneirista e invariavelmente recobre, com soluções sempre inesperadas, tanto o frémito de uma sensualidade que não desiste de ser lúcida como a vigilância de uma consciência social que não abdica de ser temperada pela ironia.”
David Mourão-Ferreira, 1981

Poesia 1963/1995

Reúne poemas escritos pelo autor entre 1962 e 1995.

“O que faz todo o interesse da poesia de Vasco Graça Moura é precisamente este jogo complexo e enredado, feito de cedências, recusas, medo, timidez e agressividade, em que o autor deseja atingir a mais serena evidência poética num estilo que poderíamos designar em termos vulgares de “como quem não quer a coisa”. Só que a “coisa” trabalha o texto em todos os seus níveis e incidências. Vasco Graça Moura fará que todos os seus versos se aproximem perigosamente da prosa mais descorada e trivial. Mas estes périplos suicidas tornam-se fascinantes precisamente porque o verso, empurrado contra o muro da prosa mais pedestre, acaba por ressaltar numa diferença irredutível em que tudo se resgata no último instante, e por um cabelo – o fio dourado de uma puríssima poesia.”
Eduardo Prado Coelho, 1994