Arredores da família

Excerto de lâmpada votiva:

5.
poderá ter morrido, ressuscita 
neste lugar humano, pobre fio 
de água verbal que vai a medo, hesita, 
e teme desmedir-se como um rio. 

e muita coisa nele se derrama, 
dita e não dita, pressentida, densas 
aluviões, emaranhada trama 
de obscuras raízes e presenças. 

virão dias, semanas, meses, anos, 
e os ciclos dos astros indiferentes, 
mover-se-ão na mesma os oceanos 
e as placas que sustentam continentes. 

mola do mundo, o coração aviva 
a chama desta lâmpada votiva. 

Artes poéticas

espaço interior

quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.

As Rimas de Petrarca

Publicada em vésperas de se comemorarem os 700 anos do nascimento do poeta e pensador italiano (1304), esta é a primeira tradução integral para língua portuguesa dos Rerum Vulgarium Fragmenta, no título original, obra também conhecida por Canzoniere, e a que Vasco Graça Moura intitulou As Rimas de Petrarca. Edição bilingue com mais de 900 páginas, a obra é constituída por um total de 366 composições que se dividem em 317 sonetos, 29 canções, nove sextinas (uma dupla), sete baladas e quatro madrigais.
Na nota introdutória à obra Vasco Graça Moura analisa alguns aspectos relevantes da vida e da obra do poeta italiano.

Aretnap a pantera

Poema trilingue publicado no blogue Abrupto, com a introdução que seguidamente se transcreve:
“Há meia dúzia de anos traduzi “A pantera”, uma das peças mais célebres dos Neue Gedichte do Rilke, tendo-a incluído em apêndice à minha tradução dos Sonetos a Orfeu. Há poucas semanas, o Joaquim-Francisco Coelho escreveu-me de Harvard, onde é professor, a enviar-me a sua própria tradução da mesma pantera. Achei que o facto de ele ser brasileiro e eu português tinha alguma influência nas nossas versões. E dias depois fiz o ciclo que lhe envio para o seu blog, em première mundial (!!!), por me parecer que corresponde a algumas das solicitações que recebeu a meu respeito…
Trata-se afinal de um espelhar e contra-espelhar de ironias, em que às tantas o próprio Rilke escreve a Lou Andréas-Salomé, conversa com Rodin, engendra um soneto e “posa” para a pantera…
A qual, se estivesse na Internet, por certo se poria também a fazer um soneto. Qualquer coisa deste tipo:

não há nada no mundo que me pague
para aqui estar. não há nada que jogue
e nada que responda ou faça blague
por eu, panteramente, estar no blog.

não há verso do rilke que me afague,
por mais que o vgm aqui dialogue
com o jpp, quer me embriague,
quer passe fome, ou me espreguice e drogue.

sou a pantera fora da internet.
passo lá por acaso. depois saio
e volto às grades onde alguém me mete.

e rujo e rosno e mordo e não me ensaio
nada nas piruetas da disquette
de apagá-la depois. só me distraio.

Saudações ao seu público bloguista.”
Vasco Graça Moura

50 Poemas de Gotfried Benn

Com todas as reservas que se Ihe possam pôr, Benn é um grande poeta, dos maiores, com Trakl, do Expressionismo, e um dos maiores do século. O seu visionarismo desesperado, o seu realismo agressivo e sarcástico, a sua concepção da poesia como única redencão (e momentânea) possível, exprimem-se em versos magnificentes que são, a muitos títulos, um retrato das contradições germânicas.

50 Sonetos de Shakespeare

“É provável que o principal pilar do cânone da literatura ocidental seja a obra de William Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês nascido em 1564, em Stratford-upon-Avon, cidade onde terá morrido em 1616. Além da sua obra dramática e de alguns poemas dispersos, os seus Sonetos constituem um monumento de composição e beleza, um atlas sobre a representação do amor, da passagem do tempo e da sua finitude, da paixão erótica, do desejo ou da solidão. 
A meticulosa tradução de Vasco Graça Moura transporta para a nossa língua todo o génio do poeta inglês; é Shakesperare que escreve e ecoa na nossa língua, ora com exuberância e ironia, ora com melancolia, ora com a notável visão de um génio que sobrevive ao tempo e à morte. Só um tão notável poeta poderia traduzir Shakespeare desta forma.”

366 poemas que falam de amor

A reunião de 366 poemas – um para cada dia – sobre o amor. Grandes poetas escolhidos por um grande poeta. 

Nada há de tão natural no mundo da poesia como o tema do amor. Vasco Graça Moura reúne neste livro 366 poemas que falam de amor – que sofrem e exultam, desencorajam e comovem, entristecem e rejubilam, que falam da alegria e da surpresa do amor. E também da sua melancolia, dos seus nomes raros, da evidência, da sua inevitabilidade. Com esta escolha percorre-se também uma vasta tradição da poesia de todos os tempos, uma arte que nunca poderemos esquecer – e o deslumbramento diante do amor, justamente. 

Os mais belos de amor escritos pelos maiores portas universais: A.M. Couto Viana, Al Berto, Alexandre O’Neill, Almeida Garrett, António Osório, António Ramos Rosa, Camilo Pessanha, Carlos de Oliveira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Cesário Verde, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Fernando Pessoa, Gastão Cruz, Jorge de Sena, Louís Aragon, Luís de Camões, Luísa Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuel António Pina, Manuel Bandeira, Maria Teresa Horta, Mário Cesariny, Nuno Júdice, Pedro Homem de Mello, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Petrarca, Philip Larkin, Rui Knopfli, Ruy Belo, Sá de Miranda, Seamus Heany, Sophia de Mello Breynes Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vinicius de Morais, Vitorino Nemésio, W. H. Auden, William Shakespear e muitos outros.

A Divina Comédia de Dante Alghieri

Longo poema épico e teológico, A Divina Comédia divide-se em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Não há uma datação exacta da obra, mas presume-se que tenha sido escrita entre 1304 e 1321, ano da morte de Dante.

A Divina Comédia foi escrita em língua toscana – muito próxima do que hoje se designa por italiano – num registo vulgar, portanto, por oposição ao uso generalizado do latim na escrita erudita. Assim se tornou a obra fundadora da língua italiana moderna.

Em Portugal A Divina Comédia chegou a um universo de leitores alargado através da inexcedível tradução de Vasco Graça Moura. Com mais de seis edições desde a sua primeira publicação, A Divina Comédia conheceu em Portugal um sucesso e uma popularidade extraordinários.
Obra integral.

A Furiosa Paixão pelo Tangível

um cão para pompeia

aos amantes enlaçados contraponho
um cão de pompeia, decerto ele andaria
a brincar junto ao forum, à cata de algum osso,
quando o vesúvio o caçou, mais lesto,

para moldá-lo em pedra-pomes.
insisto em vê-lo como um bicho magro e descuidado,
de penúria diuturna. passou de leve
pelos peristilos, alheio ao luxo, à corrupção,

à astrologia, e nunca dos triclínios
lhe caiu um naco envenenado, nunca se tornou
nem animal simbólico, nem mito que ganisse.
nunca foi encontrado nas escavações, mas é para aqui chamado.

era um cão, just a dog, com pulgas e
que alçava a perna como todos os cães
e ladrava e mordia quando era preciso.
fazia pela vida e, fauno das esquinas, pelas cadelas no cio.

alguma tabuleta diria cave canem em tésseras minúsculas,
sem alaridos da história, e só sobreviveu
nos livros de latim expurgados, misturada
com a guerra das gálias e alguns nomes de deuses.

eu canto um cão sem fábula nem pedigree, que não fugiu aos fados,
um rafeiro vulgar, digamos, de plínio
o velho que, a propósito, morreu perto dali,
talvez uivando, uns dias depois dele.

“você é um cerebral”, disse-me cloé, flava e enervada.
“sim”, disse-lhe eu com prudência, “mas há tantos.
e o amor e a morte sempre foram pensáveis”.
e acrescentei “e depois? que mal faz isso ao cão?”