A puxar ao sentimento

Com este livro de fados inéditos, o génio poético de Vasco Graça Moura é recordado quatro anos após a sua morte. Na obra de Vasco Graça Moura, que escreveu vários ensaios sobre a origem deste género musical, há muitas incursões no fado e, inclusive, um livro que lhe é inteiramente dedicado: Letras do Fado Vulgar. O poeta escreveu alguns fados para as vozes de intérpretes como Mísia, Kátia Guerreiro ou Cristina Branco. 

A puxar ao sentimento inclui um bom número de fados inéditos de Vasco Graça Moura, marcados pelo seu génio melancólico e pleno de ironia – são poemas maravilhosos que, só por si, constituem uma homenagem ao fado e uma contribuição literária para abrir (ainda mais) as suas portas. 

Quatro anos depois da morte de Vasco Graça Moura, esta é uma forma de continuar a recordar uma das grandes vozes da poesia e da literatura portuguesas do nosso tempo.

A Sombra das Figuras

Excerto do poema pintura de Ilda David:
1.
O homem e o bicho estão
na luz azul e rosa das
suas origens ancestrais, as de uma
aurora harmónica. ainda vêm
 
da pura oralidade
do gesto divino, da intenção
de as imagens e o tempo
se contraírem a partir da cor
 
das hortênsias. esse é
o angelismo das figuras,
na passagem das liberdades
do mundo para os números.

A variação dos semestres deste ano; 365 versos, seguido de A escola de Frankfurt

“Nos dois poemas que constituem este livro há uma espécie de tensão entre o modo como a poesia chega, pela linguagem, à realidade. Daí a procura de um acerto e, ao mesmo tempo, desacerto entre a linguagem da realidade e a realidade da linguagem. Não são ratos os passos em que Vasco Graça Moura nos distancia do poema através duma figuração irónica que, como tal, é explicitamente assumida […].”
Fernando Guimarães

A Vita Nuova de Dante Alighieri

No ano em que se assinalam os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o maior dos poetas italianos e um dos nomes centrais do cânone ocidental e da nossa tradição literária, a Quetzal reedita a premiada tradução de Vasco Graça Moura, há muito esgotada – e em versão bilingue.

Considerado um dos seus escritos de juventude, Vita Nova terá sido escrito entre 1291 e 1293 em Florença, terra natal de Dante Alighieri. Autobiográfica, a obra intercala verso e prosa, narração e contemplação, lirismo e memória, soneto e balada, alegoria e sensualidade, erotismo e religiosidade, muito ao sabor do dolce stil nuovo – e será uma das obras mais influentes no lirismo posterior. 

O motivo central do livro é a paixão do autor por Beatriz Portinari, desde os nove anos – e o reencontro nove anos depois, aos dezoito -, até que a vida os separa prematuramente. A linguagem é inovadora para a época, a forma como Dante celebra o amor e os seus mistérios e tragédias é uma nova forma de tratar o mais nobre dos temas da poesia, e a figura de Beatriz é simultaneamente símbolo metafísico, sexual e místico.

Acht gedichte

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
 
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
 
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

Alguns amores de Ronsard

“(…) o que singulariza (Ronsard) é precisamente o confronto constante entre erotismo e tempo que passa, entre a variação da condição física e a frustração amorosa, entre o desejo e o corpo da mulher, entre figuras da mitologia clássica e ocorrências do quotidiano, entre simular-se em situação num sem-número de metamorfoses ou arder variamente em várias flamas (como diria Camões) e um princípio ou uma figura do Amor delas independente, entre humor, ternura, capricho mais ou menos libertino e lirismo, entre convencionalismo, naturalidade, imitação, variação e destra exploração inovadora de uma língua a fixar a sua modernidade e a sua coloquialidade literárias.”
Vasco Graça Moura

21 poetas suecos

Antologia coordenada por Vasco Graça Moura e Ana Hatherly, com uma selecção de poetas suecos, com traduções de Almeida Faria, Ana Hatherly, Casimiro de Brito, Teresa Salema, e Vasco Graça Moura.