Poesia 1963/1995

Reúne poemas escritos pelo autor entre 1962 e 1995.

“O que faz todo o interesse da poesia de Vasco Graça Moura é precisamente este jogo complexo e enredado, feito de cedências, recusas, medo, timidez e agressividade, em que o autor deseja atingir a mais serena evidência poética num estilo que poderíamos designar em termos vulgares de “como quem não quer a coisa”. Só que a “coisa” trabalha o texto em todos os seus níveis e incidências. Vasco Graça Moura fará que todos os seus versos se aproximem perigosamente da prosa mais descorada e trivial. Mas estes périplos suicidas tornam-se fascinantes precisamente porque o verso, empurrado contra o muro da prosa mais pedestre, acaba por ressaltar numa diferença irredutível em que tudo se resgata no último instante, e por um cabelo – o fio dourado de uma puríssima poesia.”
Eduardo Prado Coelho, 1994

Quatro sextinas

Excerto de quatro sextinas

[…]
da esperança que trazia acesa
em seu olhar de consumir-se tanto
no silêncio convulso demorada
a alba escoa-se frágil a tranquila
humildade retira-se dos vidros
onde regressa convertida em chuva

tanto convém que se mantenha acesa
demorada nos vidros esta chuva
que hoje não sei se branda ou intranquila

Rainer Maria Rilke, Carrossel e Outros Poemas

“Ocorreu-me recentemente que seria interessante indagar como é que os animais existem na poesia de Rainer Maria Rilke. A ideia veio-me da leitura de alguns passos dos Cadernos de Malte Laurids Brigge e das Cartas a um Jovem Poeta. Nesses textos, e porque, diz Rilke, “há entre as coisas e os animais um numeroso acontecer”, aponta-se por um lado a uma profunda concordância dos ciclos e ritmos da visa e, por outro, à importância de certas formas de vida para a eclosão de uma poética.
Rilke lembra a Kappus: “toda a beleza nos animais e nas plantas é uma forma silenciosa e permanente de amor e desejo e pode ver o animal como vê as plantas, unindo-se e multiplicando-se e crescendo pacientemente, doculmente, não do prazer físico, não do sofrimento físico, curvando-se às necessidades que são maiores do que o prazer e mais fortes do que a vontade e a resistência”. Malte Laurids Brigge escreve que “por causa de um verso, tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã”.
A minha ideia de organizar e traduzir um bestiário rilkiano tem a sua origem nestas passagens.
O conjunto tem certa variedade e heterogeneidade. […] Mas em todos funciona um certo tipo de inquietação lírica, como se, através do palpitar entrevisto nas criaturas animadas que são objecto do poema, se nos pudesse desvendar mais alguma coisa, mesmo que esse alguma coisa não seja mais, passe o paradozo, do que a própria indecifrabilidade. Rilke procurava, a partir dos Novos poemas, um novo tipo de objectividade despersonalizada, como se os seres e as coisas fossem expressos a partir do seu (deles) próprio âmago.”
Vasco Graça Moura

Recitativos

Excerto de recitativos

VI
deixo este recado para karl:
todo o rigor da ruptura
cria os possíveis
da fala

mas por detrás das palavras
há uma prática crepuscular:

o modo de produção da noite
é literário

O Concerto Campestre

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
 
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
 
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

O Mês de Dezembro e outros poemas

“Como acontece nos grandes poetas em cuja família se inscreve, arriscaria dizer que a realidade criada por Vasco Graça Moura é carne nossa, mas como que anestesiada: simultaneamente nossa e distante e alheia.
Melhor: a nossa prolongada numa contiguidade que nos diz respeito.”
Pedro Tamen

“Como poeta, é Vasco Graça Moura um dos primeiros da sua geração: Dos mais exigentes, dos mais rigorosos, dos mais densos e cultos (…) A testemunhá-lo, aí estão – para citar apenas os mais recentes – livros como Quatro Sextinas, O Mês de Dezembro e Outros Poemas ou Recitativos (…)
David Mourão-Ferreira

“Uma certa densidade metafórica, um domínio seguro dos recursos expressivos (mas no sentido de poéticos) da linguagem, uma sensível e consequente vigilância estilística, uma certa agilidade sintáctica e discursiva”
Diário de Lisboa

“Particularmente este livro de Vasco Graça Moura, em nossa opinião, é um dos documentos mais impressionantemente belos dessa nova maneira de o poeta português de hoje retomar o gosto pela decadência, se aproximar de uma espécie de poesia «fim de século». É o poeta quem o diz, não somos nós, que «a arte é o princípio da morte». De que morte? A morte do próprio homem enquanto artista, a morte do próprio poeta enquanto poeta. E o reconhecer ele, Vasco Graça Moura, na sua admirável Elegia, que «nada muda no mudarem/as coisas incessantes» – o reconhecer este como que desencanto perante o novo, este como reconhecer, como reconhece na mesma Elegia, que dois amantes «conhecem tudo ou pelo menos/conhecem a ilusão de conhecerem», incongruentes – provas da extrema sageza como canta o amor e como pratica a arte da poesia, que outra coisa quererá dizer senão que os poetas da época em que o autor de O Mês de Dezembro e Outros Poemas elaboram, a partir do elaborado, o elaboradíssimo mel dos seus versos, vivem, realmente numa época de muito possível «neodecadentismo», de muito admissível «neo-fim-de-seculismo». Que isto não sirva, porém, assim o esperamos, para não conferirmos a Vasco Graça Moura e à extrema sabedoria da sua arte poética o lugar que ambos ocupam entre os mais engenhosos engenhos da poesia muito possível «fim de século». Não, Vasco Graça Moura visiona-se-nos como um dos grandes nomes da arte em que a arte «é o princípio da morte» – morte da própria arte, seja qual for «a consciência ou o rigor bastantes/para tocá-las na sua ressonância» – para tocá-las, à arte e à morte. E se o livro de Vasco Graça Moura em algo toca com rigor e elevação, com força e beleza, é na arte como arte e na morte como morte: morte da vida e morte da arte.”
João Gaspar Simões

O poema sobre o desastre de Lisboa de Voltaire

A tradução de Vasco Graça Moura do célebre poema de Voltaire dedicado ao terrível terramoto que destruiu Lisboa, e cujas repercussões sociais e políticas se fizeram sentir por toda a Europa, numa edição ilustrada com iconografia da época.
François Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido como Voltaire, foi um escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês, que se destacou pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, nomeadamente a liberdade religiosa e o livre comércio. Autor prolífico, assinou obras em todos os géneros literários. Escritor, poeta, cronista, tradutor e eurodeputado, Vasco Graça Moura tem um vasto trabalho literário que tem merecido as maiores distinções nacionais e internacionais, sendo a sua obra de tradução muito aclamada internacionalmente, nomeadamente a de Dante, Ronsard e Petrarca.

O Retrato de Francisca Matroco e outros poemas

a fava

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

O Romanceiro e o Pranto de Federico García Lorca

Além dos clássicos italianos primaciais (Dante, Petrarca) e dos dramaturgos franceses do século xvii (Racine, Corneille e Molière), Vasco Graça Moura também se dedicou à tradução de poetas europeus do século xx, como Rainer Maria Rilke ou Federico García Lorca.

A presente tradução, que agora se publica em versão bilingue, apresenta duas vertentes da obra poética de Lorca, que se materializam em dois livros: Romanceiro Cigano, de sabor mais popular, em que se cantam o amor, a morte, o dia, a noite e a paisagem, e em que o efeito quase surrealista tem que ver com o recurso a várias tradições líricas; e Pranto por Ignacio Sánchez Mejías, poema fúnebre em memória de um toureiro célebre, com uma composição mais elaborada (em que surge, por exemplo, o decassílabo) e que Vasco Graça Moura elege como um dos grandes poemas trágicos do século xx: “Põe em presença o homem, as suas capacidades de razão, de sensibilidade e de coragem, a enfrentar a fúria bruta da irracionalidade numa coreografia da morte e do destino em quatro andamentos de extraordinária musicalidade.”

Os Lusíadas para gente nova

Um livro admirável em que Vasco Graça Moura, um dos mais destacados poetas portugueses, dialoga, em verso, com o texto camoniano, iluminando, esclarecendo e exaltando o canto originário. Através de um perfeito equilíbrio entre a reescrita modernizadora e a fidelidade à estrutura e aos significados da epopeia de Camões, Vasco Graça Moura assina uma obra indispensável a professores, educadores e jovens, para a compreensão fluída, correcta e abrangente de Os Lusíadas pelas novas gerações.