“Os poemas da minha vida são textos que fui descobrindo e que me foram descobrindo. Não se tratou de escolher os melhores poemas líricos que julgo ter lido em toda a vida, embora estes também se incluam nessa categoria tão vasta, mas de registar toda uma série daqueles que, por alguma razão, terão deixado em mim marcas suficientemente importantes para que me ocorram com alguma evidência de terem interferido naquilo que sou como escritor, hoje, numa noite de hotel de Estrasburgo, tanto assim que os enumero sem ter nenhum livro à mão, o que assegura mais a detecção e rememoração da importância de cada caso concreto do que um trabalho morosamente elaborado numa biblioteca…”
Vasco Graça Moura
Etiqueta Obra: Poesia
Os Rostos Comunicantes
“A prática intertextual, tão obsessivamente presente em Graça Moura, […] no próprio momento em que se coloca como prolongamento ulterior de vozes já catalogadas na tradição, revela, em meu entender, uma desconfiança de fundo sobre as possibilidades de renovação da poesia. E no entanto, paradoxalmente, é de uma tal desconfiança que nasce uma tentativa de escrita criativa das mais corajosas e «novas» que o actual panorama português nos pode oferecer.”
Carlo Vittorio Cattaneo
Expresso, 15.5.82
Os Sonetos a Orfeu de Rainer Maria Rilke
Os Sonetos a Orfeu foram escritos como monumento funerário para Wera Ouckama Knoop (1900-1919), a quem, numa carta de 1923, Rilke se refere nestes termos: «a figura daquela Wera Knoop que morreu de dezassete ou dezoito anos, que eu conheci pouco e só vi duas ou três vezes na vida, pois ela era ainda uma criança… Essa bela criança, que começou, primeiro, por dançar e fazia sensação junto de todos quantos então a viam pela sua entrega, de corpo e alma, à arte inata do movimento e da transformação, – disse inesperadamente a sua mãe que já não podia, nem queria continuar a dançar…; (isso foi logo à saída da infância) o seu corpo alterou-se de modo estranho e, sem perder a sua bela configuração oriental, tornou-se estranhamente pesado e maciço… (o que era já o início da misteriosa doença das glândulas que tão depressa havia de trazer-lhe a morte)… No tempo que ainda lhe restava, Wera dedicou-se à música e, por fim, já só desenhava, – como se a dança proibida ainda dela emanasse cada vez mais leve e cada vez mais discretamente…»
O Cid de Pierre Corneille
Pierre Corneille é amplamente conhecido como o «fundador da tragédia francesa» e, juntamente com Racine e Molière, como um dos grandes dramaturgos franceses do século XVII. Corneille nasceu em Rouen, em 1606, gozou de uma rigorosa educação jesuítica e, aos dezoito anos, começou a cursar Direito. Mais tarde, autor oficial por nomeação do Cardeal Richelieu, rompe com o seu estatuto de poeta do regime, e escreve obras que constituem matéria de grandes controvérsias morais e formais. Exemplo disso é O Cid (1637), baseado na lenda de El Cid Campeador, que aqui se apresenta na tradução de Vasco Graça Moura.
O Caderno da Casa das Nuvens
Após uma pequeníssima edição de autor, para distribuição aos amigos, este conjunto de poemas inéditos chega agora ao grande público leitor.
Letras do fado vulgar
insinceridade
quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco
nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés
a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio
sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada
por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.
Imitação das Artes
Excerto do poema pintura de Ilda David:
1.
O homem e o bicho estão
na luz azul e rosa das
suas origens ancestrais, as de uma
aurora harmónica. ainda vêm
da pura oralidade
do gesto divino, da intenção
de as imagens e o tempo
se contraírem a partir da cor
das hortênsias. esse é
o angelismo das figuras,
na passagem das liberdades
do mundo para os números.
Instrumentos para a melancolia
do estilo
Mas quando penso que o estilo é
a minha relação com este texto
e é mediatamente uma medida
de todas as mais coisas que provoca
mas quando penso que o estilo é vosso
na vossa relação com este texto
e há descoincidências entre as coisas
desmelodias diversamente fiduciárias
quando penso que este texto é só
a diferença da escrita e a palpável
simulação verbal duma unidade
que se rearticula rasurada
mas
Jaime Sabines, os amorosos e outros poemas
Tradução de poemas do mexicano Jaime Sabines para a língua portuguesa por Vasco Graça Moura.