Imitação das Artes

Excerto do poema pintura de Ilda David:
1.
O homem e o bicho estão
na luz azul e rosa das
suas origens ancestrais, as de uma
aurora harmónica. ainda vêm
 
da pura oralidade
do gesto divino, da intenção
de as imagens e o tempo
se contraírem a partir da cor
 
das hortênsias. esse é
o angelismo das figuras,
na passagem das liberdades
do mundo para os números.

Instrumentos para a melancolia

do estilo

Mas quando penso que o estilo é
a minha relação com este texto
e é mediatamente uma medida
de todas as mais coisas que provoca

mas quando penso que o estilo é vosso
na vossa relação com este texto
e há descoincidências entre as coisas
desmelodias diversamente fiduciárias

quando penso que este texto é só
a diferença da escrita e a palpável
simulação verbal duma unidade
que se rearticula rasurada

mas

Laocoonte, rimas várias, andamentos graves

“Neste regresso à poesia com um extenso livro de quase 200 páginas, dividido em oito partes distintas, Vasco Graça Moura retoma alguns aspectos essenciais do seu trabalho: uma pulsão narrativa por vezes de grande fôlego, uma linguagem ora coloquial, ora carregada de referências culturais, um irreprimível diálogo com outras formas estéticas como a música ou as artes plásticas e a insistente preocupação com os principais temas clássicos – tudo isto envolvido numa sábia mas sóbria mistura de ironia e de melancolia e servido por uma oficina cuja maestria versificatória se tem apurado cada vez mais.» 
Fernando Pinto do Amaral, Público, Mil Folhas 
«A poesia de Graça Moura aspira a um certo classicismo, faceta mais evidente desde que o autor empreendeu importantes traduções dos clássicos (primeiro Shakespeare, depois Dante, Petrarca ou Ronsard). É uma poesia apostada numa arte poética que reformula a cada momento. Mas é também uma poesia plural, capaz do prosaísmo e mesmo do ludismo. […Laocoonte, Rimas Várias….] é Vasco Graça Moura no ponto mais alto de mestria técnica e sopro clássico.”
Pedro Mexia, Diário de Notícias 

Letras do fado vulgar

insinceridade
quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Lusitana praia

“Ainda Eduardo Lourenço dizia recentemente, a propósito de Portugal e dos desafios do milénio: “O futuro é também uma ideia de fé, mas devemos imaginá-lo num tempo que simbolicamente perdeu a fé no futuro.” Mas mesmo sem falar de fé, e uma vez que se vive num tempo em que o alargamento da União Europeia se coloca como uma questão essencial, será também necessário que o alargamento “interior” a propósito do enraizamento na Europa e da pertença de fundo à sua civilização tenha lugar em e a partir de cada uma das identidades e das culturas que formam o mosaico europeu. O que ão exclui, em termos de formação e evolução das mentalidades, que a “Europa como destino” ainda surja a muitos portugueses como uma espécie de destino “residual”. E é exactamente nessa zona da memória obscura, em que se fundem tantos factores, tantos elementos, tantas contradições, tantas verbalizações, tantas tensões entre aquilo que permanece e aquilo que vai mudando, até tantos oportunismos, por vezes inconscientes, intelectuais, culturais e políticos, que se coloca o cerne da questão da identidade.”
[Do Prefácio]

Mais fados & companhia

“Depois de ter publicado as minhas letras do fado vulgar (1997, reedição acrescentada em 2001), pensei que não viria a reincidir nova tentativa de escrever para o mais popular dos nossos géneros cantados. Todavia, em princípios de 2003 e a pedido de Mísia, concordei em escrever uma séries de letras para outras tantas músicas de Carlos Paredes, de que ela gravou a maior parte. Tratava-se de um desafio completamente diferente , uma vez que se tornava necessário preparar textos que “encaixassem” em peças musicais já existentes, o que implicava percorrer um caminho inverso daquele a que eu estava habituado. E com isso me vi envolvido numa experiência muito aliciante e muito complexa que, de resto, me permitiu compreender melhor as estruturas e as subtilezas do universo musical de Paredes.Foi durante a feitura dessas peças que muitas outras ideias, que nestas coisas são como as cerejas, suscitadas à medida que os referidos textos iam sendo construídos para essa colaboração e discutidos com Mísia, deram lugar a mais uma série de letras para fado.”
Vasco Graça Moura

Meu amor, era de noite

Meu amor, era de noite, quinta obra de ficção de Vasco Graça Moura, é um romance de amor, no contraponto de várias ironias. Mas a verdadeira questão que o livro coloca é de saber se o romance sentimental ainda é possível no princípio do século XXI.