Além dos clássicos italianos primaciais (Dante, Petrarca) e dos dramaturgos franceses do século xvii (Racine, Corneille e Molière), Vasco Graça Moura também se dedicou à tradução de poetas europeus do século xx, como Rainer Maria Rilke ou Federico García Lorca.
A presente tradução, que agora se publica em versão bilingue, apresenta duas vertentes da obra poética de Lorca, que se materializam em dois livros: Romanceiro Cigano, de sabor mais popular, em que se cantam o amor, a morte, o dia, a noite e a paisagem, e em que o efeito quase surrealista tem que ver com o recurso a várias tradições líricas; e Pranto por Ignacio Sánchez Mejías, poema fúnebre em memória de um toureiro célebre, com uma composição mais elaborada (em que surge, por exemplo, o decassílabo) e que Vasco Graça Moura elege como um dos grandes poemas trágicos do século xx: “Põe em presença o homem, as suas capacidades de razão, de sensibilidade e de coragem, a enfrentar a fúria bruta da irracionalidade numa coreografia da morte e do destino em quatro andamentos de extraordinária musicalidade.”
A novela Os Desmandos de Violante é a terceira parte de uma sequência iniciada por Vasco Graça Moura em 2008, com O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp, a que se seguiu, em 2010, O Mestre de Música. Este ciclo narrativo, cuja acção decorre entre 1807 e 1814, perfaz uma trilogia a que o autor resolveu dar o título genérico de O vermelho e as sombras.
Para melhor compreensão desse título do conjunto, se dirá que o «vermelho» funciona como metáfora de tempos de guerra, sangue e violência, como o foram os das Invasões Francesas em Portugal, e presta ao mesmo tempo uma homenagem que se pretende evidente e literal ao Stendhal de Le Rouge et le Noir.
Por sua vez, as «sombras» quereriam ser a sugestão quase cinematográfica do comportamento e da movimentação de algumas personagens — figuras da aristocracia, das artes (em especial da música), do clero e do povo — , que se envolvem em estranhas situações e se vão recortando contra aquele fundo de convulsão social e política rapidamente aludido.
Como se diz no subtítulo, esta é «uma novela amoral». Não relata casos edificantes, nem procura dar conta de soluções éticas ou castigos exemplares para os comportamentos e desregramentos das suas personagens, nem sempre conformes aos bons costumes.
Nas três partes que formam a trilogia, encadeia-se uma história de paixões, amores e desamores, ódios, ambições, crueldades, aventureirismos e indiferenças, que se desenvolvem em rápido ritmo narrativo, numa escrita muito pessoal e desinibida que privilegia as peripécias sucintas e as situações de desfecho inesperado.
Um livro admirável em que Vasco Graça Moura, um dos mais destacados poetas portugueses, dialoga, em verso, com o texto camoniano, iluminando, esclarecendo e exaltando o canto originário. Através de um perfeito equilíbrio entre a reescrita modernizadora e a fidelidade à estrutura e aos significados da epopeia de Camões, Vasco Graça Moura assina uma obra indispensável a professores, educadores e jovens, para a compreensão fluída, correcta e abrangente de Os Lusíadas pelas novas gerações.
Antologia de contos e novelas portugueses dos séculos XIX e XX em três volumes, escolhida e prefaciada por Vasco Graça Moura
“Ao carácter enciclopédico, de constituintes unificados por nobre ideal, da oba de Camões deve corresponder, admito, no comentador dela, um tipo de plurisdisciplinaridade cujas partes exigente consciência cultural norteie, aglutine e vivifique (…). Ao A. sobram aptidões e experiência para nisso se distinguir.”
Emanuel Paulo Ramos
“Os poemas da minha vida são textos que fui descobrindo e que me foram descobrindo. Não se tratou de escolher os melhores poemas líricos que julgo ter lido em toda a vida, embora estes também se incluam nessa categoria tão vasta, mas de registar toda uma série daqueles que, por alguma razão, terão deixado em mim marcas suficientemente importantes para que me ocorram com alguma evidência de terem interferido naquilo que sou como escritor, hoje, numa noite de hotel de Estrasburgo, tanto assim que os enumero sem ter nenhum livro à mão, o que assegura mais a detecção e rememoração da importância de cada caso concreto do que um trabalho morosamente elaborado numa biblioteca…”
Vasco Graça Moura
“A prática intertextual, tão obsessivamente presente em Graça Moura, […] no próprio momento em que se coloca como prolongamento ulterior de vozes já catalogadas na tradição, revela, em meu entender, uma desconfiança de fundo sobre as possibilidades de renovação da poesia. E no entanto, paradoxalmente, é de uma tal desconfiança que nasce uma tentativa de escrita criativa das mais corajosas e «novas» que o actual panorama português nos pode oferecer.”
Carlo Vittorio Cattaneo
Expresso, 15.5.82
Os Sonetos a Orfeu foram escritos como monumento funerário para Wera Ouckama Knoop (1900-1919), a quem, numa carta de 1923, Rilke se refere nestes termos: «a figura daquela Wera Knoop que morreu de dezassete ou dezoito anos, que eu conheci pouco e só vi duas ou três vezes na vida, pois ela era ainda uma criança… Essa bela criança, que começou, primeiro, por dançar e fazia sensação junto de todos quantos então a viam pela sua entrega, de corpo e alma, à arte inata do movimento e da transformação, – disse inesperadamente a sua mãe que já não podia, nem queria continuar a dançar…; (isso foi logo à saída da infância) o seu corpo alterou-se de modo estranho e, sem perder a sua bela configuração oriental, tornou-se estranhamente pesado e maciço… (o que era já o início da misteriosa doença das glândulas que tão depressa havia de trazer-lhe a morte)… No tempo que ainda lhe restava, Wera dedicou-se à música e, por fim, já só desenhava, – como se a dança proibida ainda dela emanasse cada vez mais leve e cada vez mais discretamente…»
“Nesta viagem à roda da obra poética de Herculano muitas coisas ficaram por dizer. Com alguns aspectos datados e muitos aspectos actuais, a nossa leitura dessa poesia não pode fazer-se sem aproveitar todas as irisações actuais de uma sensibilidade semântica que não era a dele. A muitas das suas palavras emprestamos novos e mais complexos significados. Das suas atitudes e da sua vida ficar-nos-á também a lição útil de que o processo das sociedades e a mentalidade dos homens não são redutíveis a silogismos e de que todos os princípios teóricos envolvem perigos práticos e admitem correcções na vida real: daí que, entre a revolução e a reforma, esta última me tenha parecido preferível, por anti-jacobina e não totalitária nem dogmática. E daí que a primeira condição para a reforma fosse uma profunda revolução moral, com o que voltamos à sua poesia.”
Vasco Graça Moura