Poema
silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada
e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique
de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso
mas
todo o poema é perfeitamente impuro
Um menino obcecado por um periquito azul, enquanto graves coisas se vão passando; uma conversa na oficina de António Gonçalves, o impressor de Os Lusíadas; o reencontro fatal de um casal suburbano desavindo; um maestro fatigado que se deixa adormecer à beira-mar; uma história de sexo, assassínio e talvez espionagem; Graham Greene, padrinho e amante de Catherine Walston: a segunda carta que Philip Lord Chandos, filhos mais novo do Conde de Bath, escreveu a Francis Bacon; um caso de amor e morte, com a Alemanha nazi em pano de fundo e latas de sardinhas Walkyrie de permeio, uma tragédia operática no Largo do Picadeiro, os bizarros mistérios de um colégio de meninas de boas famílias… e mais uma dezena de outros universos singulares revisitados com uma ironia que vai das ficções engendradas pelo autor.
variações sobre um gato
um dos pequenos
gatos da casa
saltou-me para o colo e
do colo saltou
para o computador.
rapidamente
estava em cima do teclado
e surgiram as letras
“b” e “a” no monitor.
pensei, por este
caminho ainda sai “bach”
e tive medo de me
perturbar com tanta
rapidez desse acaso
musical.
nem poderia, depois,
explicar bem o caso
às minhas filhas
que são as donas
dos gatos.
nem convinha
passarmos a olhar um
deles como sobre-
dotado em relação
ao outro.
nem mesmo imaginar
que ao “b” e ao “a”
se seguiriam o “c” e o “h”.
mas, impedindo-o
estarei eu a
fazer outra coisa
que não seja deixar
essa suposição
flutuando no teu
humor, leitor?
assim, peguei no gato
e retirei-o do teclado
antes que fosse tarde
de mais.
o pior é se o bicho
se eriça em franz liszt
e um dia ainda salta
para o cravo e toca
si bemol, lá, dó, si.
“Esta antologia reúne oito séculos de poesia em língua portuguesa sobre o Natal. Inicia-se com Afonso X, o Sábio, cujas Cantigas de Santa Maria foram escritas em galego-português no século XIII, e termina com Rui Lage e Pedro Sena-Lino, poetas que começaram a publicar em livro em 2002 e 2005, respectivamente. Inclui 202 textos de 130 poetas.
A extrema variedade de formas e registos dentro da unidade temática considerada justifica que se tenha lançado mão do título de um poema de Cabral do Nascimento, “Natal… Natais”, para designar o conjunto das peças aqui recolhidas.
(…)
No Natal da era pós-Pessoa, o “coração oposto ao mundo” abre-se por muitas vias e cruza-se, cada vez mais e dos mais variados modos, com esse mesmo mundo. É também nesse sentido que a poesia relativa ao Natal representa uma linha de continuidade importante em oito séculos de literatura na nossa língua e contrinua, ainda hoje, a fazer parte da cultura portuguesa.”
Vasco Graça Moura
O narrador de Naufrágio de Sepúlveda tem em comum com o autor o facto de ambos serem administradores da Imprensa Nacional. Por uma série de acasos e coincidências, chegam-lhe várias pistas e testemunhos que lhe permitem ir reconstituindo a história de Manuel de Sousa Sepúlveda, empresário falido poucos dias antes do 25 de Abril, e de algumas personagens a ele ligadas, em especial, o romance de amor de sua filha Catarina com um holandês errante, o músico de jazz Jos de Groot. Mas com a narrativa acaba também por se entrelaçar, discretamente e a vários títulos, a própria questão da identidade nacional e da inserção europeia como saída alternativa para as situações envolvidas pela metáfora do naufrágio… Também neste livro, tal como em outras obras do autor, de poesia e ficção, a música e outras referências culturais integram-se no desenvolvimento da história como componentes essenciais da dimensão humana.
Este ensaio serviu de base a uma conferência conferida pelo autor na biblioteca Rosa Peixoto, na Póvoa do Varzim, em 29 de fevereiro de 1980, integrada no programa das organizações culturais da SOPETE.
Tradução para a língua inglesa de 19 poemas de Vasco Graça Moura.
I
esta é a sombra, o rigor
do coração: nó cego, indesatável
por nevoeiro espesso
ou ténue gaze na distância.
uma obscura (translúcida razão?)
como papel de seda vibra
ou se amarfanha
surda, tu e eu poderíamos
rasgar a sombra intocável?
nenhum sentir distingue
seu intrincado músculo ansioso,
propulsor de sombras e sangue?
nenhum poder é transparente,
ileso? poderíamos?
O livro de Natal para a Fundação Champalimaud, este ano dedicado à poesia portuguesa e à sua relação com os temas da ciência, desde o século XVI aos dias de hoje. Tratando-se de dois temas tão distantes mas, ao mesmo tempo, com tantos pontos de contacto, o título desta obra surge de um breve poema de Álvaro de Campos, cujo primeiro verso parece bastante adequado na sua original formulação provocatória: O binómio de Newton & a Vénus de Milo. A presente selecção resulta numa obra de referência, ricamente ilustrada neste álbum de luxo, que procede a outras obras de referência, produzidas anteriormente para a Função Champalimaud, como O Tratado dos Olhos de Pedro Hispano ou Os Descobrimentos Portugueses e a Ciência Europeia.