O Cid de Pierre Corneille

Pierre Corneille é amplamente conhecido como o «fundador da tragédia francesa» e, juntamente com Racine e Molière, como um dos grandes dramaturgos franceses do século XVII. Corneille nasceu em Rouen, em 1606, gozou de uma rigorosa educação jesuítica e, aos dezoito anos, começou a cursar Direito. Mais tarde, autor oficial por nomeação do Cardeal Richelieu, rompe com o seu estatuto de poeta do regime, e escreve obras que constituem matéria de grandes controvérsias morais e formais. Exemplo disso é O Cid (1637), baseado na lenda de El Cid Campeador, que aqui se apresenta na tradução de Vasco Graça Moura.

O Concerto Campestre

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
 
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
 
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

O Enigma de Zulmira

É o quinto romance na vasta obra literária de Vasco Graça Moura, poeta, romancista, tradutor e (polémico) ensaísta.
O período ditatorial da primeira metade dos anos cinquenta em Portugal é o cenário deste romance de engenhosa consturção, de tal modo que o mesmo cenário de repressão acaba por ser mais uma das personagens do texto, em que três planos temporais se entrecruzam: a época da história de Zulmira propriamente dita, a época em que ela é violentamente trazida à memória de um das personagens e finalmente a actualidade, em que um jovem argumentista de cinema tenta desembrulhar os meandros mais obscuros da história. Zulmira é a mulher estranha cujo envolvimento erótico com o agente da PIDE que a interroga abre uma relação ambígua entre a actividade da polícia política do Estado Novo e a do Partido Comunista Português. Quaisquer semelhanças do caso concreto com a realidade histórica são, como é hábito dizer-se, pura coincidência que o leitor encontrará ou não, sem prejuízo de o prazer, o interesse e a voracidade da leitura serem inevitáveis. 

O Mês de Dezembro e outros poemas

“Como acontece nos grandes poetas em cuja família se inscreve, arriscaria dizer que a realidade criada por Vasco Graça Moura é carne nossa, mas como que anestesiada: simultaneamente nossa e distante e alheia.
Melhor: a nossa prolongada numa contiguidade que nos diz respeito.”
Pedro Tamen

“Como poeta, é Vasco Graça Moura um dos primeiros da sua geração: Dos mais exigentes, dos mais rigorosos, dos mais densos e cultos (…) A testemunhá-lo, aí estão – para citar apenas os mais recentes – livros como Quatro Sextinas, O Mês de Dezembro e Outros Poemas ou Recitativos (…)
David Mourão-Ferreira

“Uma certa densidade metafórica, um domínio seguro dos recursos expressivos (mas no sentido de poéticos) da linguagem, uma sensível e consequente vigilância estilística, uma certa agilidade sintáctica e discursiva”
Diário de Lisboa

“Particularmente este livro de Vasco Graça Moura, em nossa opinião, é um dos documentos mais impressionantemente belos dessa nova maneira de o poeta português de hoje retomar o gosto pela decadência, se aproximar de uma espécie de poesia «fim de século». É o poeta quem o diz, não somos nós, que «a arte é o princípio da morte». De que morte? A morte do próprio homem enquanto artista, a morte do próprio poeta enquanto poeta. E o reconhecer ele, Vasco Graça Moura, na sua admirável Elegia, que «nada muda no mudarem/as coisas incessantes» – o reconhecer este como que desencanto perante o novo, este como reconhecer, como reconhece na mesma Elegia, que dois amantes «conhecem tudo ou pelo menos/conhecem a ilusão de conhecerem», incongruentes – provas da extrema sageza como canta o amor e como pratica a arte da poesia, que outra coisa quererá dizer senão que os poetas da época em que o autor de O Mês de Dezembro e Outros Poemas elaboram, a partir do elaborado, o elaboradíssimo mel dos seus versos, vivem, realmente numa época de muito possível «neodecadentismo», de muito admissível «neo-fim-de-seculismo». Que isto não sirva, porém, assim o esperamos, para não conferirmos a Vasco Graça Moura e à extrema sabedoria da sua arte poética o lugar que ambos ocupam entre os mais engenhosos engenhos da poesia muito possível «fim de século». Não, Vasco Graça Moura visiona-se-nos como um dos grandes nomes da arte em que a arte «é o princípio da morte» – morte da própria arte, seja qual for «a consciência ou o rigor bastantes/para tocá-las na sua ressonância» – para tocá-las, à arte e à morte. E se o livro de Vasco Graça Moura em algo toca com rigor e elevação, com força e beleza, é na arte como arte e na morte como morte: morte da vida e morte da arte.”
João Gaspar Simões

O Mestre de Música

O Mestre de Música é a continuação da novela O pequeno-almoço do Sargento Beauchamp, publicada por Vasco Graça Moura na Alêtheia, em 2008. A acção, construída sobre uma série de peripécias rápidas contadas num estilo ágil, simples e directo, decorre a partir de finais de 1808, já com as tropas britânicas instaladas em Lisboa e em Campo Maior, e gira em torno da busca de uma criança cuja paternidade biológica, embora não seja cabalmente esclarecida, permite equívocos e convencimentos que acabam por ser a mola real da narrativa.

O Misantropo de Molière

Molière, Jean-Baptiste Poquelin, dramaturgo, actor e encenador francês nascido em 1622 é considerado unanimemente um dos grandes mestres da comédia satírica. Tanto a sua vida como a sua obra foram motivo de sucessivos escândalos, críticas e proibições; ainda assim, conseguiu manter o apoio do reu Luís XIV como seu mecenas. As peças de Molière, de entre as quais algumas das mais conhecidas serão Escola de Mulheres (1662), Tartufo (1664), Dom Juan (1665), Médico à Força (1666), e as Velhacarias de Scapin (1671), adoptam as formas tradicionais da comédia e revitalizam-na num novo estilo, denunciando a hipocrisia da sociedade e dos costumes da época, sob o mote castigat ridendo moris – «rindo se criticam os costumes»

O pequeno almoço do Sargento Beauchamp

A acção desta novela, décima obra de ficção de Vasco Graça Moura, decorre durante a primeira invasão francesa, na confusa situação gerada pela presença das tropas napoleónicas em Portugal. A vida, os amores e os projectos de futuro de Jacinto Negrão Bezerra de Albuquerque, na Lisboa agitada de 1808, são-nos dados numa rápida sucessão de peripécias cujo encadeamento acaba por levar a um desfecho inexorável.

O poema sobre o desastre de Lisboa de Voltaire

A tradução de Vasco Graça Moura do célebre poema de Voltaire dedicado ao terrível terramoto que destruiu Lisboa, e cujas repercussões sociais e políticas se fizeram sentir por toda a Europa, numa edição ilustrada com iconografia da época.
François Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido como Voltaire, foi um escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês, que se destacou pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, nomeadamente a liberdade religiosa e o livre comércio. Autor prolífico, assinou obras em todos os géneros literários. Escritor, poeta, cronista, tradutor e eurodeputado, Vasco Graça Moura tem um vasto trabalho literário que tem merecido as maiores distinções nacionais e internacionais, sendo a sua obra de tradução muito aclamada internacionalmente, nomeadamente a de Dante, Ronsard e Petrarca.

O Retrato de Francisca Matroco e outros poemas

a fava

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.