“Neste regresso à poesia com um extenso livro de quase 200 páginas, dividido em oito partes distintas, Vasco Graça Moura retoma alguns aspectos essenciais do seu trabalho: uma pulsão narrativa por vezes de grande fôlego, uma linguagem ora coloquial, ora carregada de referências culturais, um irreprimível diálogo com outras formas estéticas como a música ou as artes plásticas e a insistente preocupação com os principais temas clássicos – tudo isto envolvido numa sábia mas sóbria mistura de ironia e de melancolia e servido por uma oficina cuja maestria versificatória se tem apurado cada vez mais.»
Fernando Pinto do Amaral, Público, Mil Folhas
«A poesia de Graça Moura aspira a um certo classicismo, faceta mais evidente desde que o autor empreendeu importantes traduções dos clássicos (primeiro Shakespeare, depois Dante, Petrarca ou Ronsard). É uma poesia apostada numa arte poética que reformula a cada momento. Mas é também uma poesia plural, capaz do prosaísmo e mesmo do ludismo. […Laocoonte, Rimas Várias….] é Vasco Graça Moura no ponto mais alto de mestria técnica e sopro clássico.”
Pedro Mexia, Diário de Notícias
Etiqueta Obra: Poesia
Mais fados & companhia
“Depois de ter publicado as minhas letras do fado vulgar (1997, reedição acrescentada em 2001), pensei que não viria a reincidir nova tentativa de escrever para o mais popular dos nossos géneros cantados. Todavia, em princípios de 2003 e a pedido de Mísia, concordei em escrever uma séries de letras para outras tantas músicas de Carlos Paredes, de que ela gravou a maior parte. Tratava-se de um desafio completamente diferente , uma vez que se tornava necessário preparar textos que “encaixassem” em peças musicais já existentes, o que implicava percorrer um caminho inverso daquele a que eu estava habituado. E com isso me vi envolvido numa experiência muito aliciante e muito complexa que, de resto, me permitiu compreender melhor as estruturas e as subtilezas do universo musical de Paredes.Foi durante a feitura dessas peças que muitas outras ideias, que nestas coisas são como as cerejas, suscitadas à medida que os referidos textos iam sendo construídos para essa colaboração e discutidos com Mísia, deram lugar a mais uma série de letras para fado.”
Vasco Graça Moura
Modo mudando
Poema
silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada
e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique
de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso
mas
todo o poema é perfeitamente impuro
Musa da música
variações sobre um gato
um dos pequenos
gatos da casa
saltou-me para o colo e
do colo saltou
para o computador.
rapidamente
estava em cima do teclado
e surgiram as letras
“b” e “a” no monitor.
pensei, por este
caminho ainda sai “bach”
e tive medo de me
perturbar com tanta
rapidez desse acaso
musical.
nem poderia, depois,
explicar bem o caso
às minhas filhas
que são as donas
dos gatos.
nem convinha
passarmos a olhar um
deles como sobre-
dotado em relação
ao outro.
nem mesmo imaginar
que ao “b” e ao “a”
se seguiriam o “c” e o “h”.
mas, impedindo-o
estarei eu a
fazer outra coisa
que não seja deixar
essa suposição
flutuando no teu
humor, leitor?
assim, peguei no gato
e retirei-o do teclado
antes que fosse tarde
de mais.
o pior é se o bicho
se eriça em franz liszt
e um dia ainda salta
para o cravo e toca
si bemol, lá, dó, si.
Natal… Natais, oito séculos de poesia de Natal
“Esta antologia reúne oito séculos de poesia em língua portuguesa sobre o Natal. Inicia-se com Afonso X, o Sábio, cujas Cantigas de Santa Maria foram escritas em galego-português no século XIII, e termina com Rui Lage e Pedro Sena-Lino, poetas que começaram a publicar em livro em 2002 e 2005, respectivamente. Inclui 202 textos de 130 poetas.
A extrema variedade de formas e registos dentro da unidade temática considerada justifica que se tenha lançado mão do título de um poema de Cabral do Nascimento, “Natal… Natais”, para designar o conjunto das peças aqui recolhidas.
(…)
No Natal da era pós-Pessoa, o “coração oposto ao mundo” abre-se por muitas vias e cruza-se, cada vez mais e dos mais variados modos, com esse mesmo mundo. É também nesse sentido que a poesia relativa ao Natal representa uma linha de continuidade importante em oito séculos de literatura na nossa língua e contrinua, ainda hoje, a fazer parte da cultura portuguesa.”
Vasco Graça Moura
Nineteen poems
Tradução para a língua inglesa de 19 poemas de Vasco Graça Moura.
Nó cego, o regresso
I
esta é a sombra, o rigor
do coração: nó cego, indesatável
por nevoeiro espesso
ou ténue gaze na distância.
uma obscura (translúcida razão?)
como papel de seda vibra
ou se amarfanha
surda, tu e eu poderíamos
rasgar a sombra intocável?
nenhum sentir distingue
seu intrincado músculo ansioso,
propulsor de sombras e sangue?
nenhum poder é transparente,
ileso? poderíamos?
O binómio de Newton & a Vénus de Milo – poesia e ciência na literatura portuguesa
O livro de Natal para a Fundação Champalimaud, este ano dedicado à poesia portuguesa e à sua relação com os temas da ciência, desde o século XVI aos dias de hoje. Tratando-se de dois temas tão distantes mas, ao mesmo tempo, com tantos pontos de contacto, o título desta obra surge de um breve poema de Álvaro de Campos, cujo primeiro verso parece bastante adequado na sua original formulação provocatória: O binómio de Newton & a Vénus de Milo. A presente selecção resulta numa obra de referência, ricamente ilustrada neste álbum de luxo, que procede a outras obras de referência, produzidas anteriormente para a Função Champalimaud, como O Tratado dos Olhos de Pedro Hispano ou Os Descobrimentos Portugueses e a Ciência Europeia.
Dezassete Sonetos de Shakespeare
É provável que o principal pilar do cânone da literatura ocidental seja a obra de William Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês nascido em 1564, em Stratford-upon-Avon, cidade onde terá morrido em 1616. Além da sua obra dramática e de alguns poemas dispersos, os seus Sonetos constituem um monumento de composição e beleza, um atlas sobre a representação do amor, da passagem do tempo e da sua finitude, da paixão erótica, do desejo ou da solidão.
A meticulosa tradução de Vasco Graça Moura transporta para a nossa língua todo o génio do poeta inglês; é Shakesperare que escreve e ecoa na nossa língua, ora com exuberância e ironia, ora com melancolia, ora com a notável visão de um génio que sobrevive ao tempo e à morte. Só um tão notável poeta poderia traduzir Shakespeare desta forma.
El soporte de la música
Antologia de poemas de Vasco Graça Moura, traduzidos para espanhol por Lauren Mendinueta.