“Nos dois poemas que constituem este livro há uma espécie de tensão entre o modo como a poesia chega, pela linguagem, à realidade. Daí a procura de um acerto e, ao mesmo tempo, desacerto entre a linguagem da realidade e a realidade da linguagem. Não são ratos os passos em que Vasco Graça Moura nos distancia do poema através duma figuração irónica que, como tal, é explicitamente assumida […].”
Fernando Guimarães
Tipologia Obra: Livros
A Vita Nuova de Dante Alighieri
No ano em que se assinalam os 700 anos da morte de Dante Alighieri, o maior dos poetas italianos e um dos nomes centrais do cânone ocidental e da nossa tradição literária, a Quetzal reedita a premiada tradução de Vasco Graça Moura, há muito esgotada – e em versão bilingue.
Considerado um dos seus escritos de juventude, Vita Nova terá sido escrito entre 1291 e 1293 em Florença, terra natal de Dante Alighieri. Autobiográfica, a obra intercala verso e prosa, narração e contemplação, lirismo e memória, soneto e balada, alegoria e sensualidade, erotismo e religiosidade, muito ao sabor do dolce stil nuovo – e será uma das obras mais influentes no lirismo posterior.
O motivo central do livro é a paixão do autor por Beatriz Portinari, desde os nove anos – e o reencontro nove anos depois, aos dezoito -, até que a vida os separa prematuramente. A linguagem é inovadora para a época, a forma como Dante celebra o amor e os seus mistérios e tragédias é uma nova forma de tratar o mais nobre dos temas da poesia, e a figura de Beatriz é simultaneamente símbolo metafísico, sexual e místico.
Acht gedichte
blues da morte de amor
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Acordo ortográfico: a perspectiva do desastre
Nesta obra reúnem-se as intervenções principais e recentes de Vasco Graça Moura críticas ao Acordo Ortográfico de 1990, um contributo na sua «tripla» qualidade de escritor, de cidadão e de político para a discussão em torno desta questão fundamental que será discutida e votada no Parlamento português a 15 de Maio de 2008 para posterior ratificação pelo Presidente da República e que grande polémica vem suscitando.
Para ajudar na consulta e na discussão do tema, é reproduzido, no final do livro, o texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assim como uma nota explicativa e o Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em S. Tomé em 2004.
Adamastor, Nomen gigantis
Texto de Vasco Graça Moura sobre uma escultura popular de José de Guimarães, acompanhado por esboços e fotografias de obras de José de Guimarães
Alfreda ou a Quimera
Alfreda ou a Quimera é a história de uma obsessão, de uma paixão por uma bela e misteriosa mulher com quem o protagonista deste romance – um bibliófilo portuense – se relaciona intima e fugazmente. Essa paixão passa a reger a sua vida, os seus interesses, os seus actos, os seus pensamentos, enquanto ele tenta reencontrá-la. Quando a reencontra, ou quando a verdade sobre ela é revelada, apesar do desapontamento que o atinge e do seu desinteresse em reencontrá-la carnalmente, João de Melo renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado que entretanto encontrara com outra mulher, para se entregar à quimera de Alfreda. As histórias que acabam bem não fazem história; mas alguns episódios obscuros e mal resolvidos marcam-nos para sempre. Além da história central do livro, destaquem-se ainda a relação do protagonista com Pips, o seu amigo homossexual inglês, e a relação apaixonada que mantém com o mundo dos livros e com a sua cidade do Porto.
Alguns amores de Ronsard
“(…) o que singulariza (Ronsard) é precisamente o confronto constante entre erotismo e tempo que passa, entre a variação da condição física e a frustração amorosa, entre o desejo e o corpo da mulher, entre figuras da mitologia clássica e ocorrências do quotidiano, entre simular-se em situação num sem-número de metamorfoses ou arder variamente em várias flamas (como diria Camões) e um princípio ou uma figura do Amor delas independente, entre humor, ternura, capricho mais ou menos libertino e lirismo, entre convencionalismo, naturalidade, imitação, variação e destra exploração inovadora de uma língua a fixar a sua modernidade e a sua coloquialidade literárias.”
Vasco Graça Moura
Amália: dos poetas populares aos poetas cultivados
O poeta Vasco Graça Moura assina Amália dos poetas populares aos poetas cultivados, cujo primeiro esboço foi apresentado em novembro passado à Academia de Ciências de Lisboa.
Andrómaca de Jean Racine
Êxito decisivo na carreira do dramaturgo francês Jean Racine, “Andrómaca” estreia-se em Novembro de 1667 para nunca mais abandonar os palcos da Comédie Française. Em 1969, “O Amor Louco” de Jacques Rivette cristalizaria esta tragédia na história do cinema europeu, alternando cenas de uma ruína conjugal com ensaios de “Andrómaca” por uma companhia de teatro. Depois de “Berenice” e de “Fedra”, Vasco Graça Moura dá-nos em português um novo expoente da tragédia raciniana, história de amores demenciais em que o dever político e o ideal cívico arriscam perder-se na irracionalidade amorosa.