Antologia de convívios

Borges e as rosas
sonhou as rosas, rosas de ninguém
de substâncias de sombras evanescentes,
e na roda das pétalas ausentes
ficou o olhar perdido, no vaivém
 
das brisas no jardim do esquecimento.
tinham carne de noite e de perfume
e tacteou-as devagar, o gume
afiou-se num macio desalento
 
de lhes ter dado o nome: rosas, rosas
factícias alastrando o seu vermelho
de golfadas de sangue ao vão do espelho
das águas e das luas ardilosas.
 
e soube que o real era essa imagem
devolvida no espelho, de passagem.

Antologia dos sessenta anos

“Tratando pois esta antologia como encenação, só acrescentarei que, para mim, o mais complicado do espectáculo é ele corresponder a sessenta anos de idade e a quase quarenta de publicar poesia em livro…”
Vasco Graça Moura

Antologia poética

“Nesta antologia procurei reunir, em cento e poucos poemas, o que em Nemésio é mais significativo, de O Bicho Harmonioso (1939) a Sapateia Açoriana (1976). Excluí da selecção os três primeiros livros do autor, sendo certo que, quanto a La Voyelle Promise (1935), o fiz apenas por se tratar de poemas em francês que não se ajustariam por isso mesmo às características pretendidas para o presente volume. Acrescentei, a fechar, um poema avulso, que saiu em Janeiro de 1977 na revista Colóquio / Letras (n.º 35): trata-se do excepcional «Pedra de Canto», único publicado de uma série de poemas eróticos, ao que julgo saber muito grande, que não são ainda conhecidos.
Mas neste corpo antológico cruzam-se na verdade dois critérios principais: o que busca determinar aquilo que em Nemésio é mais significativo, como disse, aferido, tão objectivamente quanto possível, pelos mais importantes trabalhos críticos que ao autor foram consagrados e pelo que deles resulta, enquanto leitura, valoração e citação; o do meu próprio gosto pessoal, enquanto leitor de poedia e crítico dela (e também autor dela). Creio que o resultado é satisfatório, o que, evidentemente, não pretende ser álibi para os defeitos de que esta, como todas as antologias, também padece. Até porque, e ao contrário de muitos outros autores de certa importância, Vitorino Nemésio é, quase sempre, um poeta de grandez e qualidade fora do comum, o que complica muito o trabalho de selecção e dificulta as opções definitivas. (…)”
Vasco Graça Moura

Aretnap a pantera

Poema trilingue publicado no blogue Abrupto, com a introdução que seguidamente se transcreve:
“Há meia dúzia de anos traduzi “A pantera”, uma das peças mais célebres dos Neue Gedichte do Rilke, tendo-a incluído em apêndice à minha tradução dos Sonetos a Orfeu. Há poucas semanas, o Joaquim-Francisco Coelho escreveu-me de Harvard, onde é professor, a enviar-me a sua própria tradução da mesma pantera. Achei que o facto de ele ser brasileiro e eu português tinha alguma influência nas nossas versões. E dias depois fiz o ciclo que lhe envio para o seu blog, em première mundial (!!!), por me parecer que corresponde a algumas das solicitações que recebeu a meu respeito…
Trata-se afinal de um espelhar e contra-espelhar de ironias, em que às tantas o próprio Rilke escreve a Lou Andréas-Salomé, conversa com Rodin, engendra um soneto e “posa” para a pantera…
A qual, se estivesse na Internet, por certo se poria também a fazer um soneto. Qualquer coisa deste tipo:

não há nada no mundo que me pague
para aqui estar. não há nada que jogue
e nada que responda ou faça blague
por eu, panteramente, estar no blog.

não há verso do rilke que me afague,
por mais que o vgm aqui dialogue
com o jpp, quer me embriague,
quer passe fome, ou me espreguice e drogue.

sou a pantera fora da internet.
passo lá por acaso. depois saio
e volto às grades onde alguém me mete.

e rujo e rosno e mordo e não me ensaio
nada nas piruetas da disquette
de apagá-la depois. só me distraio.

Saudações ao seu público bloguista.”
Vasco Graça Moura

Arredores da família

Excerto de lâmpada votiva:

5.
poderá ter morrido, ressuscita 
neste lugar humano, pobre fio 
de água verbal que vai a medo, hesita, 
e teme desmedir-se como um rio. 

e muita coisa nele se derrama, 
dita e não dita, pressentida, densas 
aluviões, emaranhada trama 
de obscuras raízes e presenças. 

virão dias, semanas, meses, anos, 
e os ciclos dos astros indiferentes, 
mover-se-ão na mesma os oceanos 
e as placas que sustentam continentes. 

mola do mundo, o coração aviva 
a chama desta lâmpada votiva. 

Artes poéticas

espaço interior

quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.

As Botas do Sargento

A Catarina foi contar à Francisca, que a Adélia, a empregada lá de casa, lhe revelara que tinha no sótão, escondidas, umas botas mágicas. As botas pertenciam ao pai, que fora sargento e bailarino, e que só as calçava nas noites de Santo Antão, São Pedro e São João. As botas estavam sujas mas, se fossem verdadeiramente bem limpas, uma vez calçadas, ensinavam a dançar. 
A partir de algumas das famosas telas de Paula Rego – Duas Meninas e um Cão, de 1987; A Filha do Soldado, 1987; Partida, 1988; A Filha do Polícia, 1987; A Dança, 1988; O Sonho de José, 1990 –, Vasco Graça Moura constrói uma narrativa dentro do espírito e do imaginário da pintora: há meninas, cães, empregadas domésticas, gatos e bailes ao luar, e a realidade sempre agarrada ao sonho – ou vice-versa. Na segunda parte do livro, conta-se a história de vida e artística de Paula Rego, através de fotografias, desenhos e de muitas passagens em discurso direto (Paula Rego nas suas próprias palavras), num registo acessível e adequado às faixas etárias visadas.

As Rimas de Petrarca

Publicada em vésperas de se comemorarem os 700 anos do nascimento do poeta e pensador italiano (1304), esta é a primeira tradução integral para língua portuguesa dos Rerum Vulgarium Fragmenta, no título original, obra também conhecida por Canzoniere, e a que Vasco Graça Moura intitulou As Rimas de Petrarca. Edição bilingue com mais de 900 páginas, a obra é constituída por um total de 366 composições que se dividem em 317 sonetos, 29 canções, nove sextinas (uma dupla), sete baladas e quatro madrigais.
Na nota introdutória à obra Vasco Graça Moura analisa alguns aspectos relevantes da vida e da obra do poeta italiano.