Retratos de Camões é último livro de Vasco Graça Moura. Numa edição cuidada, em capa dura, com ilustrações a cores. “O que esta pequenina edição pretende ser é tudo o que Vasco Graça Moura disse e a que ele me deu o seu acordo”, explica Manuel Fonseca, administrador da Guerra e Paz, em Nota de Editor, agora que o livro está concluído.
Vasco Graça Moura propõe-se identificar o verdadeiro retrato de Luís Vaz de Camões. «Retratos de Camões» é uma reflexão verdadeiramente fascinante sobre as imagens clássicas e contemporâneas de Camões, que estimula o leitor à sua análise e reflexão. Uma obra que inclui imagens de autores contemporâneos como Júlio Pomar, João Cutileiro, José Aurélio e José de Guimarães.
Tipologia Obra: Livros
Retratos de Isabel e outras tentativas
Em Retratos de Isabel e outras tentativas reúne-se um conjunto de ensios sobre temas de Hisória, de Cultura e de Arte ligados aos séculos XV e XVI. O autor preocupou.se sobretudo com uma série de problematizações em que acabam por entrelaçar-se pistas da mais variada ordem, dando por vezes consistência a hipóteses configuradas como plaúsiveis, ou, noutros casos, amplificando algumas interrogações conhecidas. Álvaro Pires de Évora e o Grão Vasco; os tratados de Alcáçovas, de Tordesilhas e de Saragoça; Gil Vicente, Erasmo e alguns seus contemporâneos; Garcia de Resende e a sua Miscelânea; a importante iconografia da Imperatriz Isabel de Portugal; o enigma das tapeçarias de Viena de Áustria sobre os feitos de D. João de Castro; o retrato de corte do século XVI; Luís de Camões, a Europa e os Descobrimentos; alguns revivalismos enfim, constituem o elenco das matérias principais. Sem a veleidade de chegar a quaisquer conclusões seguras quanto às questões abordadas, nestes textos, aceita-se como intrínseca à natureza do ensaio a sua própria propensão a fluir enquanto “tentativa”, deambulante e necessariamente precária. Uma dada realidade histórica é sempre imperfeitamente circundada nestas revisitações. Mas esse é também um dos prazeres deste divagar atento através dos tópicos desenvolvidos.
Ronda dos meninos expostos, auto breve de Natal
Para escrever este auto, Vasco Graça Moura inspirou-se no catálogo da exposição «Sinais de Expostos» constituída por muitos dos bilhetes de identificação obscura que acompanhavam os recém-nascidos abandonados anonimamente na roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, sobretudo no período que vai de fins do século XVIII a meados do século XIX. Serviam estes sinais, assim como as peças de roupa e outros objetos que acompanhavam a criança, como desculpa para, mais tarde, recuperar o exposto, ou apenas como sossego de consciência e gesto de ternura da mãe para o seu filho.
Saint-John Perse / Calouste Gulbenkian, correspondance 1946-1954
Correspondência entre Saint-John Perse e Calouste Gulbenkian entre 1946 e 1954, organizada, anotada e apresentada por Vasco Graça Moura
Semana Inglesa
do tempo que passa
Nós que vivemos graves junto da madeira
velha de nossas casas mastigando
alguns talos de couve mal cozida
e pano de lençol com dentes já usados
nós que transcrevemos as manchas e rasgamos
rascunhos muito antigos e alguns novos projectos
recuperando móveis e faianças
e todas as maçãs onde habitámos
nós que temos cimento ferramentas grebes
e um pouco de corelli e um sistema
respiratório e caracteres de imprensa
e um plano geral de arruamentos
e que temos livros e que estamos vivos
podemos construir alguma coisa
Sequências regulares
Excerto de sete sonetos com muito amor alguns nomes e uma certa ironia:
1
não fui consigo ver desenhos. hockney
não passará por si mas as begónias
agora lhas dedico o traço que
alguém vai imitar deste catálogo.
que perfeitos estores estou a vê-la
a jarra esguia a sombra e você traz
uma roupa de célia em risca azul
não fui consigo ver desenhos. amo-a.
choveu: talvez não fôssemos frugais
mas outra coisa havia, as coisas são
irrepetíveis vamos ensaiando
medida e desmedida
não fui consigo, fui consigo, não
creio que a importância esteja aí
Sete Livros e um CD
Cofre que inclui Artes poéticas, Musa da música, Arredores da Família, Antologia de convívios, Outros Lugares, Imitação das artes, e Testamento de VGM / Testament de VGM.
“Escondido” na tampa, vem ainda Letras do Fado Vulgar, e um CD em que António Pinto Basto canta Vasco Graça Moura
Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens, hipóteses de história da cultura
“Todos os textos reunidos neste volume abordam, com excepção do último, aspectos ligados à História da Cultura Portuguesa do século XVI. Não procuram demonstrar eses alicerçadas com maior ou menor solidez, mas sim problematizar vários pontos em torno dos temas respectivos, muitos deles ainda longe de um esclarecimento satisfatório, e que têm intrigado e preocupado o autor e estimulado a sua imaginação, tanto no tocante à Arte e à Literatura daquela época como às relações, por vezes um tanto ou quanto clandestinas, que existiram entre ambas. É por esta razão que tais textos representam sobretudo uma proposta de reflexão sobre o enunciado das pistas que ele foi seguindo, mais do que um qualquer processo de aquisição de certezas. Por isso também lhes chamei, em subtítulo, “Hipóteses de História da Cultura”. Colocados sob o signo do “talvez”, outras designações poderiam caber-lhes: “ensaios”, “tentativas”, “conjecturas”, que mais não pretendem ser do que isso com toda a franqueza e com toda a fraqueza, mas também com toda a liberdade de deriva através dos problemas que tal atitude acarreta.”
Vasco Graça Moura
Sombras com Aquiles e Pentesileia
«Acabo de escrever um longo poema em sete partes (no total uns 200 versos) sobre o tema de Aquiles e Pentesileia. Mas estes são transportados da guerra de Tróia para uma luta entre dois bandos de motards e a grande (e trágica) questão é a da “dilatação” pelo amor do instante do “reconhecimento”, sobretudo quando a morte dita as suas leis. Enfim, V. verá, pela cópia que lhe mando. Eu não queria o poema ilustrado por um pintor, no sentido tradicional do termo “ilustração”! Mas penso que ficava muito bem conjugá-lo com desenhos de um pintor que porventura já existissem e estou convencido de que a minha editora acolheria bem a ideia (…) Ora Você tem tantos esboços e trabalhos preparatórios de quadros, para além daquilo que eu não conheço, que me ocorreu que talvez tivesse um conjunto de desenhos que “dessem bem” com o texto…»
(De uma carta do autor, em 30.5.98, para Jorge Pinheiro)
«Como me disse que não queria “ilustração de”, e eu também não me sinto nada bem nessa situação; como pensou em algo, tipo apontamento, que já estivesse feito; como eu não queria também contar (eu) uma história, dei a volta à memória tentando recordar-me de apontamentos que “dessem bem” com o poema. Acontece que esses apontamentos, para mim, fazem parte geneticamente dos quadros e faço o impossível para os não separar. E, quando venho o quadro, os desenhos vão juntamente (…) Mesmo assim, e depois destas congeminações todasm li o título do poema, os primeiros versos, e disse para os meus botões: – se leio o poema fico prisioneiro de certas imaens e a desejada separação entre os desenhos e o poema corre riscos. Mas, hoje, não resisti à tentação e li mesmo o poema várias vezes.
Parece-me que, felizmente, não fiquei “envenenado” porque, se bem o li, ou pelo menos, foi assim que o li, a atmosfera que todo o discurso cria sobrepõe-se a qualquer hipótese de história ou narrativa. Os personagens não têm “feições”, os espaços de acção não são tornados visíveis, as referências são tangenciais e remetem sempre para a memória de memórias de memórias… “ad infinitum”.
As “meias pelavras desarrumam” tanto quanto a estrutura arruma os fragmentos com que é construído (…)
Ora, por via disto, eu lembrie-me (e também na sequência do seu desejo de ver aí qualquer coisa do tipo apontamentos) de procurar nos meus papéis apontamentos de pés, mãos, cabeças, etc., isto é, fragmentos que, juntos, impossibilitem a construção de qualquer tentativa de narrar o que quer que seja.»
(De uma carta de Jorge Pinheiro para o autor em 6.6.98)
Sonetos Familiares
o melro de visita
o amor não é uma saga cruel:
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.
na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.
mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal
desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.