Sonetos Familiares

o melro de visita

o amor não é uma saga cruel:
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.
 
na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.
 
mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal
 
desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.

Testamento de VGM, Testament de VGM

Neste poema autobiográfico (e de balanço de vida) escrito por altura do seu sexagésimo aniversário à maneira de um testamento, Vasco Graça Moura vai buscar inspiração à matriz de François Villon, poeta maldito da Idade Média francesa, mais concretamente ao seu poema «Le testament». Inicia-se este (de 1461) com a referência de Villon ao seu trigésimo aniversário («en l’an de mon trentième âge»). Graça Moura replica-o (dobrando o número de anos) no primeiro verso deste livro, em que se lê «no ano em que sou duplo trintão».

Tra conoscenza e cumplice armonia

Tradução para italiano de alguns poemas de Vasco Graça Moura, incluindo poemas de poemas com pessoas, o retrato de Francisca Matroco, Sombras com Aquiles e Pentesileia, Garrett numa cópia perdida de Frei Luís de Sousa.

Uma Carta no Inverno

vita brevis

a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
 
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
a tentar deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
 
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
 
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz. 

Variações Metálicas

Talvez se possa dizer, sem grandes hesitações perante outros momentos muito altos da poesia de Vasco Graça Moura, que, com Variações Metálicas, estamos perante uma das suas obras maiores. Abra-se o livro logo no início, nas oitavas da oficina, e não mais deixaremos de nos deslumbrar com poesia em que, guiado por Camões e Cesário Verde, Vasco Graça Moura visita a oficina do escultor José Aurélio.

“Alguns dos poemas”, diz o autor no prefácio, “explicam- -se exactamente por procurarem transmitir essa impressão, ligada ao ofício, à artesanalidade, ao habitat da criação, ao combate com as formas e ao engendramento delas. Outros, surgiram directamente da contemplação das peças, procurando eu que o texto funcionasse como uma modalidade da sua representação verbal, isto é, ecfrástica. Todos [os poemas] procuram reencontrar-se com um jogo criativo e, por sua vez, se propõem como exercício literário, ao mesmo tempo autónomo e complementar, sobre uma série de experiências visuais e de processo de literalidade e alusão: sequência de variações estruturada pelo recurso a formas regulares (com excepção do último poema) que pretenderiam constituir uma disciplina contrastante com o seu próprio objecto e vão sendo diferentes de texto para texto; sonoridades, imagens e metáforas predominantemente elaboradas sobre referentes metálicos; controlo lírico das intervenções da memória e da história e das citações (e recitações…) abrindo caminho para outros planos; amostragem muito diversificada relativamente às áreas criativas do escultor.”

Visto da margem sul do rio o Porto

“É um privilégio revisitar a nossa cidade através da leitura destes poemas de Vasco Graça Moura. Lidos assim, reunidos, seja qual for a ordem por que os lemos e até a ordem por que foram escritos ao longo de quase meio século, traçam um percurso sedutor, que nos envolve em cada página. Neste seu porto, o Porto onde nasceu, Vasco Graça Moura abre-nos, por muitos caminhos, a cidade que reescreve, na constante busca do espírito do lugar, como se buscasse a sua própria identidade e sentido, nos tempos e espaços da infância e da juventude, mas a que regressa sempre, em incessante acto de recriação e redescoberta…” Gaspar Martins Pereira

Poesias castelhanas de Camões

Luís de Camões escreveu algumas poesias em língua castelhana. É o conjunto destas composições poéticas, traduzidas por Vasco Graça Moura, que se disponibiliza aos leitores em edição autónoma.

Os Sonetos de Shakespeare

É provável que o principal pilar do cânone da literatura ocidental seja a obra de William Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês nascido em 1564, em Stratford-upon-Avon, cidade onde terá morrido em 1616. Além da sua obra dramática e de alguns poemas dispersos, os seus Sonetos constituem um monumento de composição e beleza, um atlas sobre a representação do amor, da passagem do tempo e da sua finitude, da paixão erótica, do desejo ou da solidão.
A meticulosa tradução de Vasco Graça Moura transporta para a nossa língua todo o génio do poeta inglês; é Shakesperare que escreve e ecoa na nossa língua, ora com exuberância e ironia, ora com melancolia, ora com a notável visão de um génio que sobrevive ao tempo e à morte. Só um tão notável poeta poderia traduzir Shakespeare desta forma.