O mar da foz

Recolha de poemas e de outros lugares nos arredores da poesia por José da Cruz Santos, com um prefácio de Miguel Veiga e uma pintura de Armando Alves. Inclui o poema O lugar certo de Vasco Graça Moura.

Às vezes são precisas rimas destas / Manchmal braucht man solche reime

Cem anos de história de Portugal e dos países de língua alemã em poemas de alguns dos autores mais signigicativos do ´seculo XX. Nesta antologia, mais de cem textos de quase cem poetas traçam um panorama poético dos acontecimentos políticos desde a I Guerra Mundial até ao século XXI. Apesar da diversidade dos acontecimentos políticos e sociais que os desencadearam . guerras, revoluções, ditaduras, resistência, catástrofes -, estes poemas revelam sobretudo a experiência humana comum em tempos de mudança e recomeço.

Ao Porto

Antologia poética sobre o Porto organizada por Adosinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira.

Testamento de vgm

Neste poema autobiográfico (e de balanço de vida) escrito por altura do seu sexagésimo aniversário à maneira de um testamento, Vasco Graça Moura vai buscar inspiração à matriz de François Villon, poeta maldito da Idade Média francesa, mais concretamente ao seu poema «Le testament». Inicia-se este (de 1461) com a referência de Villon ao seu trigésimo aniversário («en l’an de mon trentième âge»). Graça Moura replica-o (dobrando o número de anos) no primeiro verso deste livro, em que se lê «no ano em que sou duplo trintão».

Semana Inglesa

do tempo que passa

Nós que vivemos graves junto da madeira
velha de nossas casas mastigando
alguns talos de couve mal cozida
e pano de lençol com dentes já usados

nós que transcrevemos as manchas e rasgamos
rascunhos muito antigos e alguns novos projectos
recuperando móveis e faianças
e todas as maçãs onde habitámos

nós que temos cimento ferramentas grebes
e um pouco de corelli e um sistema
respiratório e caracteres de imprensa
e um plano geral de arruamentos

e que temos livros e que estamos vivos
podemos construir alguma coisa

Sequências regulares

Excerto de sete sonetos com muito amor alguns nomes e uma certa ironia:

1
não fui consigo ver desenhos. hockney
não passará por si mas as begónias
agora lhas dedico o traço que
alguém vai imitar deste catálogo.

que perfeitos estores estou a vê-la
a jarra esguia a sombra e você traz
uma roupa de célia em risca azul
não fui consigo ver desenhos. amo-a.

choveu: talvez não fôssemos frugais
mas outra coisa havia, as coisas são
irrepetíveis vamos ensaiando
medida e desmedida

não fui consigo, fui consigo, não
creio que a importância esteja aí

Sete Livros e um CD

Cofre que inclui Artes poéticas, Musa da música, Arredores da Família, Antologia de convívios, Outros Lugares, Imitação das artes, e Testamento de VGM / Testament de VGM.
“Escondido” na tampa, vem ainda Letras do Fado Vulgar, e um CD em que António Pinto Basto canta Vasco Graça Moura

Sombras com Aquiles e Pentesileia

«Acabo de escrever um longo poema em sete partes (no total uns 200 versos) sobre o tema de Aquiles e Pentesileia. Mas estes são transportados da guerra de Tróia para uma luta entre dois bandos de motards e a grande (e trágica) questão é a da “dilatação” pelo amor do instante do “reconhecimento”, sobretudo quando a morte dita as suas leis. Enfim, V. verá, pela cópia que lhe mando. Eu não queria o poema ilustrado por um pintor, no sentido tradicional do termo “ilustração”! Mas penso que ficava muito bem conjugá-lo com desenhos de um pintor que porventura já existissem e estou convencido de que a minha editora acolheria bem a ideia (…) Ora Você tem tantos esboços e trabalhos preparatórios de quadros, para além daquilo que eu não conheço, que me ocorreu que talvez tivesse um conjunto de desenhos que “dessem bem” com o texto…»
(De uma carta do autor, em 30.5.98, para Jorge Pinheiro)

«Como me disse que não queria “ilustração de”, e eu também não me sinto nada bem nessa situação; como pensou em algo, tipo apontamento, que já estivesse feito; como eu não queria também contar (eu) uma história, dei a volta à memória tentando recordar-me de apontamentos que “dessem bem” com o poema. Acontece que esses apontamentos, para mim, fazem parte geneticamente dos quadros e faço o impossível para os não separar. E, quando venho o quadro, os desenhos vão juntamente (…) Mesmo assim, e depois destas congeminações todasm li o título do poema, os primeiros versos, e disse para os meus botões: – se leio o poema fico prisioneiro de certas imaens e a desejada separação entre os desenhos e o poema corre riscos. Mas, hoje, não resisti à tentação e li mesmo o poema várias vezes.
Parece-me que, felizmente, não fiquei “envenenado” porque, se bem o li, ou pelo menos, foi assim que o li, a atmosfera que todo o discurso cria sobrepõe-se a qualquer hipótese de história ou narrativa. Os personagens não têm “feições”, os espaços de acção não são tornados visíveis, as referências são tangenciais e remetem sempre para a memória de memórias de memórias… “ad infinitum”.
As “meias pelavras desarrumam” tanto quanto a estrutura arruma os fragmentos com que é construído (…)
Ora, por via disto, eu lembrie-me (e também na sequência do seu desejo de ver aí qualquer coisa do tipo apontamentos) de procurar nos meus papéis apontamentos de pés, mãos, cabeças, etc., isto é, fragmentos que, juntos, impossibilitem a construção de qualquer tentativa de narrar o que quer que seja.»
(De uma carta de Jorge Pinheiro para o autor em 6.6.98)