Naufrágio de Sepúlveda

O narrador de Naufrágio de Sepúlveda tem em comum com o autor o facto de ambos serem administradores da Imprensa Nacional. Por uma série de acasos e coincidências, chegam-lhe várias pistas e testemunhos que lhe permitem ir reconstituindo a história de Manuel de Sousa Sepúlveda, empresário falido poucos dias antes do 25 de Abril, e de algumas personagens a ele ligadas, em especial, o romance de amor de sua filha Catarina com um holandês errante, o músico de jazz Jos de Groot. Mas com a narrativa acaba também por se entrelaçar, discretamente e a vários títulos, a própria questão da identidade nacional e da inserção europeia como saída alternativa para as situações envolvidas pela metáfora do naufrágio… Também neste livro, tal como em outras obras do autor, de poesia e ficção, a música e outras referências culturais integram-se no desenvolvimento da história como componentes essenciais da dimensão humana.

Duas mulheres em novembro

Num consultório manhoso de um bairro lisboeta, duas mulheres esperam a chegada do médico, em Novembro de 1975. Nas ruas cheias o ambiente é tenso e sucedem-se as manifestações, naquela sala lúgubre elas estão sós consigo próprias, aguardando a hora de ser atendidas. A segunda a chegar mete conversa e descobre conhecer a sua ocasional «parceira»: ambas são do Porto, da Foz, de classe social muito diferente (a mãe de uma trabalhou para a mãe da outra) e com percursos de vida completamente distintos. E são estes percursos que, afinal, no fundo, também têm muito em comum, é o «retrato» mais íntimo das duas mulheres, que o leitor vai descobrindo através de magistrais diálogos, pungentes e divertidos, entre ambas – e, em simultâneo, interiores. Enquanto o médico não chega – e acabará mesmo por não chegar….

Gloria in excelsis, Histórias portuguesas de Natal

“(…) a festividade religiosa (do presépio à missa do Galo) e a sua paralela celebração secular e jubilante quase sempre no plano da família; o contraste mais ou menos chocante entre Graça e desgraça, ou entre grupos e condições sociais; o regresso de alguém que, regra geral, estava ausente havia muito; a evocação do tempo e das vivências do passado; a reconciliação entre os homens; por vezes o sofrimento, a tragédia ou a violência numa quadra que não deveria comportá-los; quase sempre a ruralidade do meio em que a acção decorre (nesta colectânea, todavia, com algumas excepções nítidas); como cenário de fundo, é frequente a contraposição do mau tempo (chuva, frio, neve, ventania) a um ambiente aconchegado e familiar.”
Vasco Graça Moura

Mais de quarenta histórias natalícias da pena dos grandes clássicos portugueses dos séculos XIX e XX, escolhidas por Vasco Graça Moura.

Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Régio, Vitorino Nemésio, Gaspar Simões, Miguel Torga, Alves Redol, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, José Saramago, Natália Nunes, Maria Ondina Braga, Isabel da Nóbrega e José Eduardo Agualusa, entre muitos outros.

As Botas do Sargento

A Catarina foi contar à Francisca, que a Adélia, a empregada lá de casa, lhe revelara que tinha no sótão, escondidas, umas botas mágicas. As botas pertenciam ao pai, que fora sargento e bailarino, e que só as calçava nas noites de Santo Antão, São Pedro e São João. As botas estavam sujas mas, se fossem verdadeiramente bem limpas, uma vez calçadas, ensinavam a dançar. 
A partir de algumas das famosas telas de Paula Rego – Duas Meninas e um Cão, de 1987; A Filha do Soldado, 1987; Partida, 1988; A Filha do Polícia, 1987; A Dança, 1988; O Sonho de José, 1990 –, Vasco Graça Moura constrói uma narrativa dentro do espírito e do imaginário da pintora: há meninas, cães, empregadas domésticas, gatos e bailes ao luar, e a realidade sempre agarrada ao sonho – ou vice-versa. Na segunda parte do livro, conta-se a história de vida e artística de Paula Rego, através de fotografias, desenhos e de muitas passagens em discurso direto (Paula Rego nas suas próprias palavras), num registo acessível e adequado às faixas etárias visadas.

A Morte de Ninguém

“É verdade que conheci o Arnold Davis. Já lá vai muito tempo, foi nos primeiros anos de 40, a guerra ainda estava para durar. Eu era ainda muito novo, estava a sair da adolescência, tinha acabado de entrar na faculdade, e em Lisboa vivia-se com alguma perturbação. A atmosfera conhece-a Você dos livros e dos filmes. Cenas de bas-fond e grandes jogadas sub-reptícias nos meios da alta secoeidade, intrigas e traições um pouco por toda a parte, espionagem e refugiados, política, diplomacia, negócios e negociatas, especulação, chantagens, violência, crime e intervenções da polícia em combinações variadas e também, claro, grandes interesses e dramas pessoais por entre essas luzes entrecortadas que hoje temos tendência a ver em termos mais ou menos romântico, mas que eram sobretudo mais ou menos sórdidos. O Arnold era vagamente escritor e vagamente jornalista, ou, pelo menos, apresentava-se como tal. Suponho que, na realidade, era um agente ingçês que procurava mover-se discretamente nas águas turvas da capital (…)”

Alfreda ou a Quimera

Alfreda ou a Quimera é a história de uma obsessão, de uma paixão por uma bela e misteriosa mulher com quem o protagonista deste romance – um bibliófilo portuense – se relaciona intima e fugazmente. Essa paixão passa a reger a sua vida, os seus interesses, os seus actos, os seus pensamentos, enquanto ele tenta reencontrá-la. Quando a reencontra, ou quando a verdade sobre ela é revelada, apesar do desapontamento que o atinge e do seu desinteresse em reencontrá-la carnalmente, João de Melo renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado que entretanto encontrara com outra mulher, para se entregar à quimera de Alfreda. As histórias que acabam bem não fazem história; mas alguns episódios obscuros e mal resolvidos marcam-nos para sempre. Além da história central do livro, destaquem-se ainda a relação do protagonista com Pips, o seu amigo homossexual inglês, e a relação apaixonada que mantém com o mundo dos livros e com a sua cidade do Porto.