Sofonisba, a nobre cartaginesa; Sofonisba, a pintora renascentista; Sofonisba, a historiadora de arte. “Sofonisba. Um nome assim é uma predisposição romanesca”, dirá o narrador desta história, o biógrafo de Pedro de Andrade Caminha, que se vê envolvido no caso do desaparecimento de um quadro do século XVII que representa as três graças. E as três misteriosas irmãs, as três graças Aglaia, Euphrosyne e Thalia. Neste romance que cruza os caminhos do presente de uma burguesia culta da Foz do Douro com os de um passado clássico, as coincidências e os encontros de acaso podem ter consequências funestas – ou apenas altamente surpreendentes.
“Le bonheur n’est pas grand tant qu’il est incertain – a felicidade não é tão grande quanto o é incerta -” proferiu Sofonisba , enquanto figura trágica de Corneille, uma tirada que serve o tom geral desta cativante incursão ao universo ficcional, e de inesgotável erudição, de Vasco Graça Moura. E enquanto a matrona de Cartago escolhe o veneno à submissão aos soldados de Roma, Sofonisba filha de Andrúbal Parente apanha o comboio de mercadorias às 6 h 12 de uma pardacenta madrugada de Gaia.
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2004.
A acção do livro decorre em Gouvães, aldeia do Alto Douro (de onde é oriunda a família materna do autor) que VGM conhece desde que nasceu e onde passava as férias grandes durante a infância e a adolescência. Fresco histórico, de influência camiliana, em que a história da Casa dos Lemos – com os seus segredos, os seus amores proibidos, e os seus dramas – conta a história do nosso país e das mentalidades.
Em Quatro Últimas Canções há histórias de amor e de música que se entrelaçam e desenvolvem em contraponto. Nesse contraponto, o jogo de espelhos entre um espaço real e um espaço virtual, as casas de Mateus e de Constantim, respectivamente, abre um quadro cénico que torna possível reenvios, perspectiva e efeitos romanescos de vária ordem. Neste seu romance, cuja primeira edição é de 1987, Vasco Graça Moura mostra a importância da lição dos nossos grandes romancistas do século xix para a ficção de finais do século xx.
É o quinto romance na vasta obra literária de Vasco Graça Moura, poeta, romancista, tradutor e (polémico) ensaísta.
O período ditatorial da primeira metade dos anos cinquenta em Portugal é o cenário deste romance de engenhosa consturção, de tal modo que o mesmo cenário de repressão acaba por ser mais uma das personagens do texto, em que três planos temporais se entrecruzam: a época da história de Zulmira propriamente dita, a época em que ela é violentamente trazida à memória de um das personagens e finalmente a actualidade, em que um jovem argumentista de cinema tenta desembrulhar os meandros mais obscuros da história. Zulmira é a mulher estranha cujo envolvimento erótico com o agente da PIDE que a interroga abre uma relação ambígua entre a actividade da polícia política do Estado Novo e a do Partido Comunista Português. Quaisquer semelhanças do caso concreto com a realidade histórica são, como é hábito dizer-se, pura coincidência que o leitor encontrará ou não, sem prejuízo de o prazer, o interesse e a voracidade da leitura serem inevitáveis.
O Mestre de Música é a continuação da novela O pequeno-almoço do Sargento Beauchamp, publicada por Vasco Graça Moura na Alêtheia, em 2008. A acção, construída sobre uma série de peripécias rápidas contadas num estilo ágil, simples e directo, decorre a partir de finais de 1808, já com as tropas britânicas instaladas em Lisboa e em Campo Maior, e gira em torno da busca de uma criança cuja paternidade biológica, embora não seja cabalmente esclarecida, permite equívocos e convencimentos que acabam por ser a mola real da narrativa.
A acção desta novela, décima obra de ficção de Vasco Graça Moura, decorre durante a primeira invasão francesa, na confusa situação gerada pela presença das tropas napoleónicas em Portugal. A vida, os amores e os projectos de futuro de Jacinto Negrão Bezerra de Albuquerque, na Lisboa agitada de 1808, são-nos dados numa rápida sucessão de peripécias cujo encadeamento acaba por levar a um desfecho inexorável.
A novela Os Desmandos de Violante é a terceira parte de uma sequência iniciada por Vasco Graça Moura em 2008, com O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp, a que se seguiu, em 2010, O Mestre de Música. Este ciclo narrativo, cuja acção decorre entre 1807 e 1814, perfaz uma trilogia a que o autor resolveu dar o título genérico de O vermelho e as sombras.
Para melhor compreensão desse título do conjunto, se dirá que o «vermelho» funciona como metáfora de tempos de guerra, sangue e violência, como o foram os das Invasões Francesas em Portugal, e presta ao mesmo tempo uma homenagem que se pretende evidente e literal ao Stendhal de Le Rouge et le Noir.
Por sua vez, as «sombras» quereriam ser a sugestão quase cinematográfica do comportamento e da movimentação de algumas personagens — figuras da aristocracia, das artes (em especial da música), do clero e do povo — , que se envolvem em estranhas situações e se vão recortando contra aquele fundo de convulsão social e política rapidamente aludido.
Como se diz no subtítulo, esta é «uma novela amoral». Não relata casos edificantes, nem procura dar conta de soluções éticas ou castigos exemplares para os comportamentos e desregramentos das suas personagens, nem sempre conformes aos bons costumes.
Nas três partes que formam a trilogia, encadeia-se uma história de paixões, amores e desamores, ódios, ambições, crueldades, aventureirismos e indiferenças, que se desenvolvem em rápido ritmo narrativo, numa escrita muito pessoal e desinibida que privilegia as peripécias sucintas e as situações de desfecho inesperado.
Antologia de contos e novelas portugueses dos séculos XIX e XX em três volumes, escolhida e prefaciada por Vasco Graça Moura
Meu amor, era de noite, quinta obra de ficção de Vasco Graça Moura, é um romance de amor, no contraponto de várias ironias. Mas a verdadeira questão que o livro coloca é de saber se o romance sentimental ainda é possível no princípio do século XXI.
Um menino obcecado por um periquito azul, enquanto graves coisas se vão passando; uma conversa na oficina de António Gonçalves, o impressor de Os Lusíadas; o reencontro fatal de um casal suburbano desavindo; um maestro fatigado que se deixa adormecer à beira-mar; uma história de sexo, assassínio e talvez espionagem; Graham Greene, padrinho e amante de Catherine Walston: a segunda carta que Philip Lord Chandos, filhos mais novo do Conde de Bath, escreveu a Francis Bacon; um caso de amor e morte, com a Alemanha nazi em pano de fundo e latas de sardinhas Walkyrie de permeio, uma tragédia operática no Largo do Picadeiro, os bizarros mistérios de um colégio de meninas de boas famílias… e mais uma dezena de outros universos singulares revisitados com uma ironia que vai das ficções engendradas pelo autor.