Papéis de Jornal / Crónicas e outros materiais

Nos últimos anos, Vasco Graça Moura tem tido uma intervenção frequentíssima nos mais diversos meios de comunicação social. Análises políticas, comentários culturais, ensaios, crónicas, textos de circunstância, simples notas ou rápidos apontamentos – tudo isso tem caracterizado essa presença, que não prescinde de uma gama muito variada de registos expressivos e humorais, e em que é uma constante a mais total e desassombrada frontalidade quanto àquilo que o autor tem a dizer. Em Papéis de Jornal, reúnem-se várias dezenas desses textos, alguns dos quais suscitaram forte polémica, e nem todos, aliás destinados à imprensa. Por isso, em subtítulo, se fala de “crónicas e outros materiais”.

Contra Bernardo Soares e outras observações

“O conjunto de textos que apresento neste colume é, propositadamente, muito heterogéneo. Alguns têm uma natureza híbrida, situando-se algures entre o ensaio e a crónica. Outros oscilam entre a crónica e o apontamento mais ou menos diarístico. Outros terão um pensor crítico mais acentuado. Outros ainda, aliás pouco, são manifestação do meu pendor regular para comentário político, embora eu não tenha incluído os textos que considero mais agressivamente polémicos e, nalguns casos, tenha cedido a uma pulsão irreprimível de divertimento.
Quanto a todos, procurei seleccionar os que pudessem apresentar um interesse projectado para lá do circunstancialismo imediato que lhes deu origem. Por isso, e tomando como precedente o título de um célebre livro de poemas de T.S. Eliot, Prufrock and Other Observations, lhes chamei, não “ensaios” ou “crónicas”, mas “observações”, termo aqui provavelmente mais neutro, mais abragente, mesmo mais livre e mais descomprometido do que aquelas designações, e puxei para o título o mais provocatório de todos os aqui apresentados, “Contra Bernardo Soares”, que é, também com toda a probabilidade, a mais sinceramente desarmada das minhas intervenções públicas e quase me ia valendo um “motim” emocional na assistência que lhe escutou a leitura no Centro Cultural de Belém.”
Vasco Graça Moura